quinta-feira, 3 de abril de 2014

Nu questão de uma qualificação

                Antes de chegar ao dia solene, surgiram inúmeros possíveis roteiros para minha apresentação que deveria ter aproximadamente 20 minutos. Ler o texto todo que se materializou numa caixa de plástico, produzida com as capas do kit qualificação do PPGE, com um caderno de bordas de 20 folhas escrituradas, 22 folhas de texto em papel vegetal, duas folhas de texto em folha de plástico em transparência, um texto em folha A4 em papel couché, um texto em  folha A3, um texto em folha de 168 cm X 58 cm, um texto em folha formato de círculo com 90 cm de diâmetro, um texto em folha enrolada com aproximadamente 200 cm, se tornou tarefa difícil e talvez desinteressante em tempo tão curto. 
Por minha natureza performática, não faltaram advertências alheias para que não ficasse nu durante a apresentação. Colegas de grupo, amigos de curso, conhecidos que só desconhecidos de diferentes lugares.                 De pronto afastei a ideia de tirar a roupa, pois parecia óbvia demais para um trabalho que não queria parecer óbvio demais. Curiosa imagem que inventamos em algumas relações ou os desnudamentos que parecemos provocar, mesmo quando não estamos sem roupa, porque depois de pouco mais de 25 trabalhos artísticos, troquei de roupa em cena em apenas duas apresentações. Mas há algo no nu que provoca, que faz a fama sem deitar na cama. Potente o desnudar forma para inventar mais forma. Porque a gente sempre inventa uma forma de inventar forma. Que forma?
              Comecei então a pensar em outras coisas: músicas, gostava de muitas músicas, algumas produzidas por uma filosofia potente tal qual aquelas lidas nos livros filosóficos, com charme de pôr o pensamento para cantar e dançar. Dia 27 de março, Dia internacional do Teatro, me qualificava no dia 26. Lembrei-me da minha defesa de monografia pela Faculdade Angel Vianna - RJ, dia 27 de março de 2011, quando fora orientado pela primeira vez por Maria Helena Falcão. Naquele dia, li a mensagem de Augusto Boal, escrita em 2009, na qual ele destacava a relação composicional entre teatro e vida. Aguçando nosso olhar para as relações teatralizadas que vivenciamos cotidianamente, como aquela que agora protagonizava. Personagens, figurinos e espaços bem definidos, texto dramático com rigor linguístico invejável pelo dicionário, palco e plateia, conflito dramático, clímax e desfecho da trama.
               Depois pensei que o silêncio após tanta falação e escrita seria um bom exercício.
              Precisava criar um corpo ou um corpo qualificado pelo mestrado estava por ser criado. Mas o que pode um corpo? Ou, como se cria um corpo? E na Academia, como se cria um corpo? Com um texto? Ou o texto seria já corpo? Um texto cria corpo ou um corpo cria texto? O texto é corpo. Como corpo cria corpo? E o corpo põe-se como questão. Que corpo? Que corpo habita o território da Educação? Corpos educados. Corpos orquiectomizados? Que corpo cria Educação? Educação como corpo. Que corpo cria corpo educação? Que corpo cria corpo? Que corpo?
              Um corpo forma texto cria. Um corpo cria mais corpo na escrita. Corpo é escrita. Escrita é corpo. Corpoescritatecido lembrava também o trabalho com Nina, criador de tanto corpo. Agora, tanta coisa criava aquele corpo submetido à qualificação, porém composto por tanta coisa que não apenas acontecia na qualificação. Tempo do mestrado implodido por acontecimentos que arrombavam as paredes institucionais. Escrita da pele. Pensava: um vídeo com imagens que tem produzido corpo junto à pesquisa do mestrado, apesar de não fazer parte do cronos mestrado, por vir antes e por não está dito pela língua régia da pesquisa acadêmica, mas por outra língua que produz corpo. Corpo em produção. Corpo produzido. Corpo produzindo. Corpo que inventa corpo. O corpo assalta a cena.
              O corpo texto encontra + corpo em produção de mais corpo. Como corpoescritatecido, corpo cola no texto na produção de corpo. Corpo + imagem + texto + música + cola + corpo + papel + cola + corpo + música + texto + cola + cola + música + imagem + cola + texto + corpo + imagem + cola + texto + cola + corpo +++++++++++++++++ = forma = educação outra = corpo = nu.
Outro corpo. Outra produção. Outro possível. Uma garota é impedida de ficar nua na escola ou é permitida graças à um discurso adoecido: ela pode, coitada, é doidinha mesmo. Ela sempre fica nua, ela sempre causa constrangimento. Aqui o sempre não naturaliza, pelo contrário, constrange e desnaturaliza a atitude já esperada.  A paciente professora e amiga Cláudia Meireles problematiza por lá: e se experimentássemos outra coisa, e se experimentássemos o momento dela de experimentar o nu na sua nudez de possibilidade e não na ansiedade do desejo da expectativa por cobrir o corpo. A diretora responde cansada: já tentamos isso aí, outras coisas.
             Clarissa Alcântara comendo algumas frutas da banca provoca, experiência tem a ver com memória. Repetição com memória da o Mesmo. Repetição com esquecimento é diferença. E Claudia continua a repetir e repetir e repetir e repetir esquecendo os limites. Que diferença. Um corpo nu, mais uma vez. Quanto nu suporta Educação? Quando é que o corpo está nu? Que roupas? Que nu?
           Uma colagem que deveria proteger o nu dos olhares, que deveria encerrar-se e dar palavras aos outros, no encontro, rouba palavras. Encontra música, produz movimento que deixa o corpo ainda mais nu. Risco. Não havia planejado nada daquilo. Nada consciente. Deveria ter parado na primeira oportunidade, mas quando é que foi? O corpo nu que se produz na academia e poderia ser atacado pela academia, se protege com academia de muitos modos (devir animal, devir criança, resistência, blá, blá, blá, blá...): dois livros na frente de n sexos. Pudor? Talvez. No entanto, mais importante que forma nu é o movimento que a produz, movimento de invenção que potencializa outras formas impensadas, movimento caro a este território de muitos hábitos cristãos de escolares cátedras.
              Para um performer o nu é figurino obrigatório. Para um professor, assim como o chapéu de guizos de Larrosa[1], o nu é um exercício de resistência e por isso, de criação. Acabo de ser aprovado no exame de qualificação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFJF. Então, até nu defesa.




[1] LARROSA, Jorge. Elogio do riso. IN: LARROSA, Jorge. Pedagogia profana. Danças, piruetas e mascaradas. Autêntica: Belo Horizonte, 2000.












quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Caderno de Bordas

*Este texto é borda do Caderno de Bordas do trabalho "Uma formação esquizita. Uma Educação bricoleur" apresentado por Tarcísio Moreira Mendes ao exame de qualificação de Mestrado em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFJF. Aqui, o caderno borda algumas notas não apresentadas no texto escrito à mão, mas que pode ajudar a ir a outras bordas de pesquisa.


Fiquei pensando desde o dia que apresentei um exercício textual ao grupo “Formação como processo ético-estético-político”[1], a respeito do impacto e da compreensão acerca do meu trabalho.
Talvez por ter usado a caixa que havia comentado com minha orientadora, os primeiros olhares para aquelas folhas soltas, dentro de uma estranha caixa de papel, criaram a primeira questão e talvez a que se demorou mais nas discussões (porque nada foi discutido a partir do que estava escrito ou composto entre impresso em papel vegetal e texto de jornal velho): como pensar a constituição da banca de qualificação para avaliação deste texto? Uma banca de frutas, talvez. Cheirando a maçãs vermelhas, abacaxi de Marataízes cortado na hora, manga de Ubá colhida no pé e claro, muita falação como na feira livre e suas muitas bancas. Múltiplas bancas que não vendem apenas uma fruta ou legume ou verdura ou mel, compartilham muita conversa, mas muita conversa mesmo e muito mais. Mas o que isso tem a ver com educação?

Pensando agora enquanto escrevo, escrevendo agora enquanto penso, penso ainda mais. A coisa que não era defesa, que não era texto de banca, se banca? No desafio, assumo a caixa e seus textos como desejo de ser dissertação, na Educação sobre Educação com muita Arte. Apostando na composição múltipla deles, alegro-me com a potência de seu jogo de agrupamento de sequenciação, pronto para ser outro. Por isso, qualquer coisa que escreva aqui não tem o desejo de justificar escolhas ou explicar muitas coisas. Certeza que não limitará a multiplicidade de sentidos que podem surgir da relação dos textos e dos corpos, dos textos como corpos, dos corpos como textos. Nem mesmo este caderno que era diário, que por não ser tão diário – não foi escrito dia após dia, mas contaminando-se pelos dias – tem encerrado em suas palavras as intenções que suscitam dele. Sinto-me alegre ainda por saber que não tenho o mínimo controle sobre aquilo que digo, mas sei que ao dizer, outras coisas estão por se fazer. Por isso agora, só e junto, escrevo.

Livre da responsabilidade de explicar o que produzi com os texto da caixa, me senti instigado a contar um pouco sobre o processo de sua produção em fragmentos. Assim, acredito experienciar outros sentidos possíveis para coisas que ando chamando Educação e Formação e Arte, coisa muito importante, pois facilmente tende-se a um reconhecimento, independente dos territórios onde estas palavras estão. Uma educação pensada em relação com territórios. Uma formação que se faz em território. Uma formação que desterritorializa. Uma Educação que reterritorializa. Uma formação e uma educação em movimento atento às linhas de fuga.

Um caderno de bordas não quer ser de bordo, no qual se encerram os caminhos traçados de uma viagem, tentando catalogar para instruir os futuros viajantes, como um documento de registro seguro. Um caderno de bordas se quer com muitas bordas, nas bordas do já feito, mas transbordando um outro feito para bordar o feito antes de modo ainda não feito, dando vazão a outros feitos e ainda deixando fios desfeitos para muitos outros bordados.

Achei interessante tomar este lugar do discurso ou quem sabe, melhor, da narrativa. Um lugar do relato, contar uma história de como a coisa é feita, sem me ocupar em querer criar uma coisa bem-feita. Isto provocado desde o momento em que ouvi falar de um tal modo cartográfico de acompanhamento de pesquisa. Um modelo que parecia um antimodelo que, no entanto, se mostrou como modelo para criar meu próprio modelo. Não querendo impor meu modelo para pesquisa, para escrita ou para seja lá o que for, o interessante foi ser provocado a criar algo singular a partir de uma singularidade outra. Interessante para um território acostumado a pesquisas metodizáveis, reproduzíveis, controláveis, generalistas como as ditas Ciências da Natureza e que andam por influenciar as ditas Ciências Humanas e por consequência, a Educação. Uma possível dispara a uma metodologia no território da Educação provocado por outros territórios como Filosofia e Arte que acabam criando uma educação outra, um possível da educação se fazer de outro modo, abandonando o desejo de segurança por um método totalizante para pesquisa.

Os restos

Das leituras d'O anti-Édipo – e aqui leitura é muito mais que encadear ou buscar entender o que o autor quis dizer ao dizer alguma coisa, leitura como prática de violência ao pensamento que se põe a pensar o impensado – uma surpresa nos encontros com a dupla Deleuze e Guattari ao propor um outro lugar para o que chamamos de Sujeito. Deslocamento do sujeito para o lugar de resto[2]. Resto de um processo que se efetua e que se torna outro. Sujeito como resto do processo e não como resultado de um processo ou fim do processo.

Dissertação como resto de um processo que se torna outro e não fim de um processo ou resultado. Dissertação como composição de restos que torna estes outros. Nos agenciamentos e conexões, novos sentidos ainda não sabidos. Aquela história de repetição que gera diferença. É que ao procurar uma coisa acabei encontrando outra. Uma Educação que propõe uma coisa, mas que está pronta para ser proposta a outra e outra e outra e e e... é possível.

Ao procurar por uma caixa que queria transformar em uma nova mala, já que havia perdido a minha em desConexões em Campinas[3], encontro jornais de anos passados nos quais havia reportagens a respeito da conjuntura política e educacional; reportagens de cadernos de cultura com belíssimas imagens/fotos. Reportagens sobre arte. Tanta coisa interessante que de certa forma compunha com aquilo que produzia atualmente. Mas como?

Também pensei em imprimir o texto em restos de papel de pão ou papel de rascunho. Pois venho pensando que se tem consumido muito papel bom para textos ruins[4]. Para não correr o risco de desperdiçar mais papel e também contribuir, quem sabe, para preservação do planeta, pensei em usar os restos de papel que há muito tinha guardado, restos de papel que embalaram o pão que me deram energia para produzir algum texto e aí, talvez, pudesse alimentar alguém ou deixar mais fácil a tarefa de jogá-lo no lixo. Um formação que pensa em alimentar, mas que também não descarta a possibilidade de alguma coisa já não prestar para uso é possível.

O texto

Os textos foram produzidos e enviados para o e-mail a partir dos encontros do Travessia Grupo de Pesquisa, para um exercício chamado “Atravessou o Travessia”[5] que ora se tornava “atravessando o travessia”, “atravessando o atravessou o travessia”, “Atravessado pelo travessia”... Nomes muito sugestivos e bons pra compor e, sobretudo, um grupo o qual, através de suas lideranças, potencializa um território no qual composições investigativas são sempre possíveis. Muita coisa produzida por lá que me interessava e que poderia ser interessante para mostrar para outras pessoas que não estavam lá ou, que lá estavam e que olhando agora, tornava-se outra coisa, inclusive para mim. Algumas conclusões, mas muitas e muitas outras potentes questões.

Organizei primeiro em ordem de produção, por data de envio, começando por fevereiro ou seria fevereteiro? Depois, percebi que a ordenação alternava os fatores de sentidos. Tinha ainda os jornais velhos. E uma ideia surgiu: e se juntar estes textos com aqueles jornais? Que outros sentidos se produzem? Resolvi abandonar as datas e investir em um texto para cada página, tornando-os independentes e relacionáveis. Lembrei a querida parteira Sônia[6], quando sugeriu que criasse um texto no qual fosse possível começar de muitos modos e continuar de outros modos e terminar ainda, de outros modos, no qual não fosse previamente definida a ordem de suas folhas por páginas ou encadeamento de palavras ou parágrafos ou temas ou qualquer outro fio de Ariadne. O leitor é convidado a criar junto ao texto. Uma educação, uma formação na qual se cria junto, na qual se é convidado a compor de modo múltiplo, experienciando inícios sempre possíveis e fins inimagináveis.
A primeira opção era imprimir os textos nos jornais velhos. Mas devido à impossibilidade técnica (as modernas impressoras não reconhecem a gramatura do jornal, nem a contemporânea ideia de um pesquisador) ou financeira (a gráfica que se predispôs, sem garantir sucesso, cobra uma quantia significativa que não poderia pagar no momento) resolvi imprimir os textos em papel vegetal que criara uma certa estética da precariedade (uma estética de resto? Sei não.) e textura interessantes, abandonando, por hora, a ideia de imprimir na folha de jornal velha.

Ao perceber a transparência do papel vegetal pensei: e se colar sobre o jornal? Comecei a experiência sem saber o que seria: mais cola, menos cola, o tipo de cola, o efeito que causa, a escolha do texto com a folha do jornal, a falta de segurança em relacionar texto e jornal. Risco de perder os textos impressos no papel vegetal. Risco de perder os jornais há muito guardados.
Uma formação sem controle, sem causa-efeito, com junção de fragmento e fragmento, sem segurança, sem saber o que cola, o que relaciona com o quê antes da relação. Uma Educação com rugas, com muitas rugas, diferentes rugas que dobra e desdobra no encontro entre materiais na diferença é possível. Uma formação com riscos, sem análise de riscos que impeça os riscos, uma educação que se arrisca é possível.

Assim foram surgindo. O que seria uma ou duas e três experiências, foi se tornando um instigante exercício de surpresa. Tornaram-se muitas colagens, com tantos efeitos e sem muita causa, causando mais efeitos. Marcelo[7] diz que parece mais um trabalho de artes plásticas. Às vezes provoca que isso não é estudar. Talvez por uma certa euforia e descontração ao realizar minhas pesquisas.
Uma educação em arte. Uma formação estética, plástica. Um professor em formação em arte que se torna artista plástico ao pensar educação é possível. Uma formação que se confunde com prazer, com o trabalho de um artista que brinca com o tempo da criação é possível. Uma educação que confunde o que é estudar criando outro modo de estudo é possível.
Não acho que seja preciso dizer ou explicar algumas relações que se criam com o(s) texto(s). Guardo aqui minhas impressões para que você leitor possa se aventurar pelo instigante exercício de composição. Ou pare por aqui.
Uma educação que se faz em composição. Uma formação que se dá em composição no mundo e com o mundo. Uma educação que ajuda a compor, mas não determina uma única composição é possível. Uma formação que instiga a composição singular de restos é possível.

O projeto

Como avaliação de uma disciplina obrigatória do mestrado (disciplina obrigatória no mestrado é preciso?) fui provocado a pensar em como apresentar meu novo projeto, já que não se tratava do mesmo que fora apresentado à banca de seleção, intitulado “Angel Vianna provoca: professor como dobra do artista”. Inicialmente, pensei em apresentar o mesmo projeto e dizer que não havia mudado nada, só para cumprir o dever. Mas Sônia, muito paciente, propôs que usasse a atividade para pensar nos desdobramentos da pesquisa. A presença de Angel Vianna não estava mais diretamente posta como objeto, apesar de ser presença marcante na minha trajetória como pesquisador.
Uma pesquisa que se pensa em pesquisa. Uma formação que faça da obrigação outra coisa. Um projeto de educação que está sempre pronto para se tornar outro. Um projeto que não sirva para impedir fluxos, mas que libere devires. Criei o “Cuidado! Educação em obra: invenção de si e de mundo”. Apresentei-o com muito entusiasmo e logo vieram os incômodos, as incompreensões, os assombramentos e o desejo em ser convidado para minha banca de qualificação, que me pareceu também um desafio e uma suspeita acerca do sucesso de execução da pesquisa. Uma educação e uma formação que se faz com incômodo, com incompreensão, com assombramentos, com desafios, com suspeita e, sobretudo, com entusiasmo é possível. Espero somente a marcação da data para formalizar o convite, mas talvez o sucesso não seja aquele esperado. Ainda bem.

Pesquiza que se faz pesquisando

Algum tempo se passou e outra obrigação: apresentar alguma coisa, obrigatoriamente, na I Mostra de Pós-Graduação da UFJF. O que apresentar, pensava. Não que não tivesse o que apresentar, tinha muita coisa para apresentar. Aliás, a obrigação agora estava a meu favor, precisariam aprovar meu trabalho, porque era obrigação que apresentasse. Segui as regras: Objetivo, Justificativa, Metodologia/Resultado, Aposta (Hipótese). Com os encontros do Curso ou Grupo de Estudos “Formação como processo ético-estético-político” com outros e outros e instigado pela leitura d’O anti-Édipo surge a bricolagem[8] na qual cada participante do grupo ou do curso trazia, em cada encontro, algo para compor uma obra que se fazia a cada novo encontro.
Uma pesquisa como bricolagem. Uma formação como bricolagem. Uma dissertação como bricolagem. Um texto acadêmico como bricolagem. N'O anti-Édipo a dupla Deleuze e Guattari pensa o esquizo como aquele que se compõe como um bricoleur, um que associa livremente códigos, que embaralha códigos, que não segue um único e mesmo código sempre. Aqui a pesquisa é pensada como uma bricolagem (ou seria uma brincolagem) tornando a pesquisa única, singular, mas com múltiplos desdobramentos: uma pesquiza. Formação como encontro outro e outro e outro e e e... Educação como encontro outro e outro e outro e e e... Formação esquiza. Educação esquizita. Vida como livre associação. Pesquiza como afirmação de vitalidade.

Obra de arte.

A aposta na obra de arte como vida ou na vida como obra de arte está presente em trabalhos de pensadores como Nietzsche e Deleuze e Guattari e Foucault. Importante salientar aqui que penso arte não representada por esta ou aquela linguagem artística. O interesse neste trabalho é pelo modo de produção arte. A criação em educação. A arte na Educação sem desejar ser arte-educador ou professor-artista ou qualquer outro hífen que interrompa fluxos ou crie identidade que segmente a possibilidade de vida. Aqui arte é desdobra. Tem a ver com o exercício de criação de uma forma que inaugura um novo modo de relação no e com o mundo e, por isso, inaugura um novo mundo. Talvez nem seja obra de arte, mas obra em arte, metamorfose. Uma qualificação obra em arte. Uma dissertação como obra em arte que convoca seu leitor a obrar em arte, transformando-o em artista também. Uma obra em arte que cria artista ao criar junto mais obra em arte. Sem pretensão em figurar ou ser aquilo que não é: obra de arte apreciável, contemplativa, de um desses cemitérios de formas e coisas belas e históricas que se costuma chamar museus.
Formação que aposta no devir das formas. Metamorfoseia público em artista. Educação como produção de obra em arte. Obra em arte que cria obreiro em arte, que confunde objeto e sujeito, impedindo a distinção entre objeto e sujeito. Formação que aposta na arte de criar formas singulares e não reproduzir seguras familiaridades de objetos que se querem ideais. Uma formação e uma educação que obra arte é possível.

Os restos 2

Volto a falar dos restos, já me desculpando, mas acho também que está claro que nada é muito linear ou evolutivo aqui na escrita. Livre associação intensificada, pois as relações vão se dando assim, sem respeito a uma cronologia antecipada ou ordenada. É um Acontecimento que implode o tempo chronos inaugurando um aión múltiplo que corre lá cá aqui[9]. Não é primeiro isso, depois aquilo e depois aquilo outro. É isso e isso e isso e isso e... mas que tolice dizer isso[10]. Então era isso![11]
Os restos aqui também são efeitos dos encontros do Acontecelagem[12] que se iniciou em Ouro Preto, no fim de agosto e inicio de setembro de 2013. Num dos esquizodramas[13], saímos pelas ruas recolhendo algumas coisas que julgamos se tratar de restos. Tolinhos. Depois juntamos tudo e tornamos aquilo outra coisa. Restos de um outro processo que se iniciou ali. No entanto, nós nunca somos restos, apesar de muitas vezes querermos ficar agarrados aos restos que produzimos – Sujeito, Dissertação, Tese, Artista, Obra de Arte, a Forma Professor, a Forma Aluno, O Anti-Édipo, a Bíblia, Além do Bem e do Mal, Pedagogia da Autonomia, Poesia... Somos processo, processando sempre. Efetuando processo que dá início a outros, forma em devir.

Uma educação atenta aos restos, mas não refém dos restos. Uma formação atenta aos restos e pronta para tornar restos inicio de outro processo é possível. Uma educação que não tem a Forma, a Fôrma. Uma formação que forma sempre pronta para desformar-se, sempre em formação de formas que forma outras formas e outras e outras e e e... Não formação continuada, porque a forma final estática não é possível, nem a falta de forma é possível. Apesar de não termos a fórmula sempre se forma. Sempre há forma.

A bibliografia ou Referência – Ou coisas que insPIRAM

As referências não se configuraram diretamente. Apesar de estarem a todo momento presentes. Mas aqui muitas coisas e muitas delas implicaram decisivamente para as escolhas, para os trajetos e principalmente, provocaram estar onde estou e escrever como escrevo. Nada seguro, nem tampouco limitado a uma análise causa-efeito. Assim, faço o convite para que leia alguma coisa da referência que me inspira ou pira. Comece tranqüilo, despretensioso a entender, no entanto, atento para pensar outras coisas. Aposto nisso: em textos, em referências que provocam a pensar o impensado, pensar outras relações possíveis, outras relações que ainda não haviam sido pensadas por tão simples que pareciam, isso nada tem a ver com esse desejo atual de querer ser novidade instantânea. A leitura destes textos pede tempo, um tempo que não é cronológico, mas que inaugura novos tempos. Um tempo descompromissado com o calendário. Aliás, se houver algum incômodo com este tempo que insiste em nos afastar de um tempo vivo, enchendo-nos com cronogramas, avaliações, relatórios, resultados, análises de desempenho, sugiro que se perca um tempo nestas leituras e quem sabe, descobre-se que é possível inventar outro tempo para a vida que não perde tempo e inventa mais tempo para viver. E são eles: “Diferença e Repetição”; “O anti-Édipo”; “Além do Bem e do Mal”; “Ecce Homo”, “Entre Composições”; “Corpoalíngua: performance e esquizoanálise”; “Corpos Informáticos: Performance, Corpo, Política”; “Escrileitura n-1: procura arisca de fins transitivos”; “Tabacaria”; “Cântico Negro”; “O Que será que será”; “Pistas sobre o método Cartográfico”; “Pensamento, corpo e devir: Uma perspectiva ético/estético/político”.
Não selecionei nenhum trecho diretamente porque têm coisas que provocam também: o peso do livro, a cor da capa, o agrupamento dos artigos, as fotos selecionadas, o cheiro da impressão, a demora para baixar o arquivo da internet. Sei ainda que por hora, ao selecionar este ou aquele fragmento, o selecionador intensifica uma parte do texto. Porém, mais importante que selecionar este ou aquele fragmento, é perceber as relações que se cria com tal seleção. Por isso, muitos textos que trazem em seus corpos fragmentos de outros autores como Foucault ou Deleuze, mas afirmam velhas relações, não aumentam a potência da vida na academia. Mais importante que citar tal ou tal pesquisador, é apostar nas relações que seus trabalhos potencializam na afirmação de vida possível na Academia. No momento, aposto nas obras e nas descobertas que o leitor possa desvendar nestas obras que impulsionaram estar onde estou e levá-lo para um lugar que ainda não fui. Há ainda muita coisa por lá que cá não há. Uma formação de fragmentos, mas que não seleciona ou determina fragmentos importantes. Uma educação que mostre suas fontes, que seja fonte, mas que não limite a um recorte da fonte sempre a jorrar. Uma educação que indique referências, mas que não crie dependência é possível. Uma formação que inspire e que por vezes pire é preciso.

Metodologia ou como cheguei cá estou 

Não diria uma metodologia esquiza ou metodologia de pesquiza porque as pesquisas são assim, apesar de um desejo de controle impedir. Todo pesquisador seleciona e agrupa informações ou coisas criando sentidos. O pesquisador, desse modo, tem o papel de intensificar relações acabando por criar relações não pensadas. Os esquizos são aqueles capazes de promover as livres associações de coisas como um bricoleur, disse Deleuze e Guattari. Somos todos esquizos, continuam os dois. Porém, não o esquizofrênico artificializado pela psicanálise, pela obsessão de uma cura que não existe. Esquizos que relacionam coisas, que ora respeitam códigos, ora embaralha todos os códigos, criando no caos, donde surge ainda vida. Uma formação esquisita para os moldes que se espera. Uma educação esquiza.  Uma educação que permite a livre associação entre coisas. Uma formação que intensifica relações na diferença. Uma formação e uma educação bricoleur. Uma formação e uma educação produzidas por códigos, mas não refém dos códigos, que embaralha códigos, descodifica e codifica e outras coisas, mostrando que a vida é movimento e não constância de forma. Uma formação que se produz com arte, a arte bricoleur que associa livremente coisas não por falta de rigor estético, mas na produção de estética outra, um rigor que a vida exige de criar com o que está no mundo e não fora dele. Uma educação esquiza que só produz diferença na diferença, não diferentes em oposição de identidades. Uma educação que não quer produzir cura medicalizada ou prognóstica porque só pode produzir saúde, potência de vida. Uma formação sem se ocupar com forma saudável porque não há. Uma educação e uma formação preocupadas apenas com produção de vida, saúde em produção.

Para passar a limpo

Aposto numa escrita intensiva. Assim, vendo cada letrinha, cada forma de juntar um termo ao outro, os escapes da caneta, a modulação na grossura da ponta do lápis, as variações das cores do grafite e da repetição das letras, o cheiro da borracha friccionada na folha, confusão de memórias e atualizações de escolas. Desculpe-me a falta de rigor linguístico com a norma culta padrão ou as normas da ABNT que, por vezes, me escaparam no caderno. Aqui importa outro rigor, o rigor da língua que gagueja enquanto escreve. Da escrita que hesita no não saber da próxima palavra. Desvios e descontínuos. Um cutuque aos tempos da reprodutibilidade técnica replicável, aplicável, copiável, reproduzível. Uma educação não replicável, não aplicável a padrões fixos e seguros. Uma formação experenciada na sua singularidade. Uma educação produzida como rascunho definitivo.
A escrita de um texto a limpo era costume do meu Ensino Fundamental, mas ainda está presente em algumas escolas, resistindo aos apelos tecnológicos ou servindo como castigo aos jovens superconectados que esquecem como se escreve. Será? Copiar, passar a limpo para quem sabe fixar melhor o que fora escrito. Será? Capricho e boa letra é sempre desejável e recompensável com boas notas ao final de um bimestre difícil. Nem mesmo as aulas de Matemática estão livres dos cadernos a limpo. Uma educação nada asséptica contagia. Uma prática da Educação Básica contamina uma prática do Ensino Superior (ou seria Pós-Superior?). Provocado. Provocando. Uma formação que provoca contágios é possível. Uma educação que provoca outro modo de pensar educação, o básico aqui é pensar. Quem sabe um delicioso exercício estético de compor a melhor letra possível para um leitor atento. A atenção à escrita deve ser intensificada, pois os erros ficarão evidentes. Uma educação que não apaga erros, mas propõe outras versões que tornam o erro outra coisa: um exercício para criar! Uma formação que ao pensar educação ou vice-versa suja as mãos. Uma educação que se permite sujar pelo exercício de pesquisar é possível. Atenção: nada de grafologia, por favor. Aqui seremos todos alunos da vida, aprendo a fazer do Mesmo outras coisas.

A caixa

Deixo aqui espaço para pensar como produzi a caixa. Dica: a fôrma que possibilita outras formas é possível. Porém não é fácil. Pensar é sempre um exercício difícil, contudo, vivo!





[1] Seminário interno realizado para apresentação de produção junto ao curso de extensão da UFJF que faz parte do projeto de pesquisa “Oficinas de Exercícios Formativos: cartografias dos processos ético-estético-políticos em professores em formação” financiado pela FAPEMIG e realizado pelo Travessia Grupo de Pesquisa, no ano de 2013.

[2] “O terceiro corte da máquina desejante é o corte-resto ou resíduo, que produz um sujeito ao lado da máquina, peça adjacente à máquina.” (DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Trad. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 60).

[3] “V Seminário Conexões Deleuze e territórios e fugas e...” ocorrido na cidade de Campinas, promovido pela Faculdade de Educação da Unicamp, entre os dias 20 e 23 de agosto de 2013. Na ocasião, em uma noite em homenagem a Dionísio, perdi uma mala que gostava muito, usada em uma performance apresentada por lá.

Lembrei este trecho do poema “Morte do Leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade:
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
[...]
DRUMMOND, (Carlos Drummond de Andrade). Morte do leiteiro. Disponível em http://letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460649/. Acessado em 24 de jan. de 2014.

[5] O Travessia Grupo de Pesquisa, certificado pelo CNPq e abrigado no PPGE/UFJF, do qual faço parte, possui um grupo virtual usado para comunicação entre os seus membros. O “Atravessando o Travessia” é um exercício de escrita on-line que não deseja um rigor acadêmico tradicional. É motivado e deseja provocar algumas intensificações a partir dos encontros presenciais das segundas-feiras, dia de reunião do grupo.

[6] “O professor é um parteiro, ele tira do aluno o que tem para dar. Se o aluno não tem nada, não sai nada. Mas é preciso sempre ter cuidado: é claro que o aborto existe. Muitos professores matam o artista na sala de aula”. (Klauss VIANNA, A dança, 1990, p. 34).

“Um procura um parteiro para os seus pensamentos, outro alguém a quem possa ajudar: é assim que nasce uma boa conversa.” (NIETZSCHE, Para Além do Bem e do Mal, 2010, p. 97).

[7] Marcelo Neves é artista plástico e professor de arte e especialista em Arte e Comunicação pela UFJF e atual companheiro de cama, mesa e banho.
[8] A partir das leituras d’O anti-Édipo que diz “É assim que todos somos: bricoleurs” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 11) foi proposto que a cada encontro do grupo “Formação como processo ético-estético-político” alguma coisa relacionada aos encontros fosse trazida pelos participantes para compor uma obra em bricolagem.

[9] “Esse tempo crônico se opõe como contratempo a figura de aión. Aión é um nome derivado de aieí, que pode ser traduzido por sempre, e que vem da mesma raiz que dá o latim aeternus. No fragmento de Heráclito, aión poderia referir-se ao tempo considerado de uma vez, ao tempo-todo, ao tempo perene.” LARROSA, Jorge. Chronos e aión ou o acontecimento. In.: _____. Nietzsche & a Educação. Traduzido por Semíramis Goini da Veiga – 3ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 124.

[10] “Isso funciona em toda parte: às vezes sem parar, outras vezes descontinuamente. Isso respira, isso aquece, isso come. Isso caga, isso fode. Mas que erro ter dito o isso.” (DELEUZE; GAUTTARI, 2010, p. 11)

[11] “Isso equivale a dizer que o sujeito é produzido como um resto, ao lado das máquinas desejantes, ou que ele próprio se confunde com essa terceira máquina produtora e com a reconciliação residual que ela opera: síntese conjuntiva de consumo, sob a forma maravilhosa de um “Então era isso!” (idem, p. 31)

[12] “Acontecelagem – imersão em esquizodrama” foi promovido pela Fundação Gregório Baremblitt / Instituto Félix Guattari, entre os dias 30 de agosto e 1º de setembro de 2013, na cidade de Ouro Preto – Minas Gerais.

[13] Esquizodrama é maquinaria produzida pelo desejo Gregório Baremblitt junto ao encontro e ao encanto da esquizoanálise. “O esquizodrama funciona como um conjunto difuso de pragmáticas, estratégias, táticas e técnicas inspiradas em diversas cartografias praticadas na teoria psicanalítica de G. Deleuze e Felix Guattari. Dos numerosos livros que compõem essa obra, privilegiamos os tomos que constituem “Capitalismo e Esquizofrenia” (O anti-Édipo e Mil Platôs), porém não descartamos nenhum outro.” BAREMBLITT, Gregório. Dez proposições descartáveis acerca do Esquizodrama. Disponível em http://artigosgregorio.blogspot.com.br/2008/02/dez-proposies-descartveis-acerca-do.html. Acessado em 24 de jan. de 2014.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Como um cobrador se tornar motorista entre uma oficina de teatro

ou que se produz com (entre) uma oficina de teatro

Em 2010, realizamos uma oficina de teatro junto à E. E. Cornélia Ferreira Ladeira, à época como parte da programação do sucesso do Projeto de Educação Afetivo-Sexual, PEAS, nesta escola. Os encontros se deram no salão paroquial da Igreja de São José Operário, que por coincidência, estava também em construção e fica localizado no ponto final do ônibus urbano que atende o Bairro da Glória, no alto de uma colina que vislumbra uma bela vista.

Demorei um tempo para escrever este texto, pois o acontecimento que é sua motivação atravessou o tempo cronológico do acontecimento da oficina, que se encerrou em outubro de 2010.
Numa das viagens de ônibus ao local, um assunto começou mobilizar o cobrador do ônibus e um outro passageiro. Não lembro exatamente como se deu o assunto específico. Ou o modo com o qual iniciei ou me intrometi na conversa. Apenas me lembro do meio da conversa no meio da viagem. Lembro-me de estar muito quente no dia, talvez fosse final de agosto ou início de setembro. Lembro os óculos escuros, o incômodo com o calor, a bermuda e a blusa leve. Ou talvez esteja inventando agora sem compromisso em oficinar a verdade do dia.

O assunto a mobilizar os três interlocutores era política. Já não sei, porém, se era tratada a política local e uma insatisfação com o prefeito e uma possível dobradinha oportunista entre o irmão Deputado Federal e seu desconhecido irmão e o futuro prefeito municipal. Ou talvez o mensalão e seus réus que possivelmente não cumpririam as suas penas, recorreriam à sentença. Mas àquela época ainda não se pensava em embargos infringentes. Ainda bem, senão a conversa ficaria mais cansativa e apática. Lembro que o tom de desânimo misturado a uma indignação era a tônica do diálogo. Ou se era tudo isso misturado, política nacional com desdobras regional de mesmice e estagnação mundial.

Em certo momento da viagem, acho que quando só estamos eu e cobrador, e já cansado da reclamação, num tom leve e um tanto debochado, largado como deixava aquele calor que afetava meu corpo, provoquei: Você lembra em quem você votou na última eleição? Eu só fico pensando no que estamos fazendo além de reclamar, porque votar é importante, mas cobrar de quem foi eleito também é, talvez até mais importante.
Senti-me satisfeito. Ácido. Pontual. Violento. Despojado. Provocador. Vitorioso. Não me importei se ele iria ler aquela fala apenas como uma critica pessoal. É que chega um tempo em que o conformismo ressentido, essa mesquinharia medíocre, esse desejo de que a vida se torne fácil com a ação deste ou daquele Sujeito (assim com letra maiúscula), apesar da vida insistir coditianamente na sua dureza, me irrita muito! Esse fatalismo que cria inércia e um futuro choroso e desastroso que so-mente a Deus pertence, só serve àqueles que fazem chorar. Aos chorões, lenços às lágrimas e sal para acelerar a desidratação e quem sabe alguma ação.

Eu já tinha dado a conversa por encerrada, porque do jeito que estava a única saída mais lógica era um suicídio coletivo e já que estávamos dentro de um coletivo, achei melhor ficar na minha.
A conversa se tornou outra coisa. Sei que houve um intervalo, que não sei precisar o que tenha acontecido, um intervalo de anos que se dobra no momento deste texto, e alguém entrou no ônibus e a roleta girou, ou um telefone tocou, ou o sacolejo do ônibus propôs uma trégua, ou o calor dilatou tanto que relaxou os músculos e levou novamente a reclamação ao clima e não ao clímax.

Já perto do ponto final, onde era minha parada, ao me preparar para passar pela roleta, o cobrador ou trocador (depende da região deste meu país) me dirigiu a palavra, com o balanço da cabeça e dos ombros em tom de consentimento como se estivesse encontrado alguma coisa que há muito procurava. E disparou: – Cara, você me fez pensar uma coisa, e é mesmo. O que tenho ajudado a fazer? (Poderia ter sido a famosa frase de um texto conhecido, que gosto muito do Luiz Orlandi – O que estamos ajudando a fazer de nós mesmos?) Mas a leitura do texto não chegou nem perto da alegria da vitalidade da questão inventando uma outra possibilidade de vida no ônibus.

O que mais me surpreendeu foi o que veio a diante: – Eu vou fazer o curso para motorista e você vai ver, quando eu passar, vou buzinar para você! E dizer, lembra de mim?
Caro leitor, passado quase três anos, o que você acha que aconteceu? Eu não poderia me esquecer.

O texto poderia ser encerrado assim, com a alegria do encontro e talvez com certo ar de dever cumprido ou recompensado por me sentir responsável por uma mudança tão significativa ou afirmando um certo poder de Sujeito de se transformar através de outro Sujeito. Porém, o poder do encontro de destruir qualquer Sujeito. Na diferença disso, produzi este texto tentando pensar em tudo o que não disse para aquele cobrador, que nem sei o nome, decidir tomar aquela decisão. Ou isso serviria como estímulo para dizer: quando se quer alguma coisa, faça, ta vendo este cobrador-motorista... Porém, o que me põe a pensar é que em momento nenhum o desejo era transformar cobrador em motorista, era fazer oficina de teatro, entrar, para isso, no ônibus e não deixar de falar aquilo que desejava, muitas vezes parecendo chato e otimista demasiado. Continuo a pensar: quando achei que provocava, era também provocado. Penso em tudo que não disse para que o caminho fosse aquele. Muita coisa acontece entre uma oficina de teatro. Ao cobrador que se tornou motorista, minha admiração plena na afirmação de uma vida sempre possível.

Por hora, sigo com minhas práticas, na ignorância de seus efeitos, refém das causas em mim, e sem controle nenhum em causar em outros. Mas compreendo que muitas coisas são provocadas entre caminhos e vivo pensando que não é importante a partida ou a chegada, mas de fato como se faz o caminho.
E o cobrador em devir motorista da vida continua a me fazer pensar e pensar e e e...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

obrigação de ser professor! (ecos de um grupo em Formação)

O maior desafio da escola não é captar os desarranjos que não são meras subversões ou vontade de transgredir. Toda regra terá sua exceção, já diz o velho jargão. O maior desafio da escola é lidar com desejos, desejo de fazer outras coisas, desejo de fazer nada quando se está fazendo alguma coisa. E desejo não tem a ver com obrigações, inclusive, nem com aprender!

A obrigação é coisa que provoca mortes na escola, até mesmo o mais singelo e despretensioso desenho livre... Tem dias que se quer fazer outras coisas além de desenhar na aula de desenho. Ops!!! E isso seria possível?

Difícil a tarefa de lidar com a obrigação de aprender se nem sabemos como aprendemos e não temos nem a forma, nem a fôrma.

É difícil para todo professor aceitar que, sim, nem todos alunos vão achar as coisas que se diz interessante, mesmo sendo as mais coloridas, as mais diferentes, as mais alegres, as mais mais. Não adianta truques e malabares. O negócio não é entre sujeitos e objetos ou o problema não está entre o Professor e o Aluno, nem tampouco na Aula, mas na relação que não começa na escola nem termina nela, vaza e, dela, pouco se sabe, só se pode apostar, como num lance de dados.

Acho engraçado alguém se espantar com um aluno que não gosta das aulas de arte ou aceitar facilmente que outro não goste das aulas de matemática. A maior dificuldade que enfrenta um professor é a obrigação: de ensinar, de aprender e de saber tudo o que faz; de falar, de opinar, de reprovar ou aprovar. Quem disse que o professor é qualificado para aprovar ou desaprovar alguém? E se o aluno souber mais que o professor, com certeza se entediará e não fará nada ou o contrário, se o aluno não souber nada mesmo, e cansado do discurso que não se sabe nada, se entendiará de não saber nada e continuará sem saber nada. Por isso, não é uma questão simples de avaliação de causa e efeito, porque o efeito pode ter muitas causas ou ter causas sem efeito nenhum.

Nós, professores, por mais descolados que sejamos, nos sentimos obrigados a fazer alguma coisa, a dizer alguma coisa, quando também é importante não fazer alguma coisa, não dizer muitas coisas, mas ouvir e nada fazer.

E isso não quer dizer ouvir o aluno, porque o aluno também aprendeu a ficar calado. Daí, um dos maiores desafios que se tem em sala de aula é ouvir o silêncio que se produz nos entre's as falações, regras e convenções educacionais. E não fazer nada daquilo que se esperava pedagogicamente correto ou sistematizado pelo sistema de ensino que está mais preocupado em transferir informações para resolver problemas previamente estudados pelo mercado de trabalho é tarefa complicada.

Sigo apostando nesta difícil tarefa. Por hora, escrevendo um pouco.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Para falar à verdade e acabar com as mentiras


            Venho pensado que de fato existe sim verdade e que nenhuma Verdade não é inquestionável. Apesar de não estar aqui defendendo uma possibilidade racional de entender tudo, com uma metodologia explicável, reproduzível ou uma cientificidade positivista, também não estou aqui defendendo a existência de uma relatividade, de perspectivas diferentes que possam conviver, mesmo que não se relacionando, num mesmo mundo. É que uma verdade pode matar outra. Para que uma verdade nasça, outra não pode viver. É que uma verdade nasce para matar outra. É um tudo pode, mas não qualquer coisa. Não é coisa apenas do olhar, de mudança de perspectiva, é coisa de corpo inteiro.
Existe um discursinho que há muito povoa o território no qual tenho habitado, a Academia, que defende uma certa tolerância ao diferente, à ignorância alheia, quase um “pai, perdoai, eles não sabem o que fazem”. Entretanto, tem verdades que nascem no-entre, não por estarem no entre uma coisa ou outra – verdade e mentira; consciente e inconsciente; racionalidade e irracionalidade; emoção e razão; teoria e prática – mas porque não são uma coisa nem outra, por não dar sentido à distinção entre uma coisa e outra e ao mesmo tempo incorporarem uma coisa e outra, tornando-se uma coisa só capaz de se desdobrar em outras coisas inimagináveis, coisas outras. Uma verdade dobrável em outra verdade desdobrável em outra verdade desdobrável em outra verdade...
Não existe a Verdade inquestionável, ou melhor, não existe a Verdade que não seja descartável, que não possa ser jogada fora, não porque seja mentira, mas porque já não tem mais uso, não tem sentindo. É como um instrumento construído para dar conta daquele problema, mas que depois de resolvido, criou ou deu lugar para outros problemas. E isso não quer dizer que o problema tenha evoluído, mas, se resolvido, ele dá espaço para perceber outras coisas, produzir outros problemas, resolver outros problemas. Aquele instrumento criado para resolver aquele problema anterior não funciona mais para aquele problema atual. Não é capaz de criar outros sentidos. E aí há a necessidade de criar outros instrumentos, outras verdades.
            Algumas pessoas que se posicionam contra algumas Verdades historicamente constituídas, por vezes, assumem a classificação de pós-modernas. No entanto, o mais grave são aquelas que são classificadas como pós-modernas, não por se identificarem com aquilo que seria a superação da modernidade, mas por uma incapacidade de classificá-las como alguma coisa anterior à moderna forma de pensar. Porém, suas vidas foram justamente desafiam a existência da tal Modernidade, questionando a Verdade Moderna sobre a produção humana.
            Esses seres tão autênticos produzem algumas verdades, assim com letra minúscula, para resolver problemas práticos, de suas atualidades. E sabem, convivem com o fato de que aquelas verdades são locais e possuem suas relações e que em outros modos e conjunções, elas não existiriam. E isso não quer dizer que elas sejam mentiras. Elas são verdades criadas para dar conta de problemas reais e regionais, há a impossibilidade, contudo, de generalizá-las, totalizar, como foi o desejo dos titulados modernos.
            De outro modo, a Modernidade e seu filho chatinho Estruturalismo criaram a Verdade da Evolução, da Sucessão de eventos, a Ideia de Aperfeiçoamento, de Superação, de uma Estrutura fundante, capaz de causar Efeitos futuros controláveis. Alguns perceberam que isso não funcionava bem assim, pois assim funcionou mal. Abriu precedente para tomadas de decisões arbitrárias baseadas em estudos previsíveis e ações que aniquilaram vidas pelo mundo como as muitas guerras regionais, mundiais, perseguição a povos e culturas, tendo como o maior símbolo a doença nazista alemã.
            Diante desta realidade alguns pensadores provocam a pensar de outro modo, abandonando a Modernidade e o Estruturalismo como Verdade e por isso, a própria Ideia de pós-modernidade e pós-estruturalismo. Pois, crer em movimentos “pós” é ainda se filiar a algo anterior, afirmando uma Superação. Pessoas como Foucault, Deleuze, Guattari e Nietzsche denunciaram a crença nesta Ideia de Verdade sempre em depuração, em movimento de Evolução, em direção a um Aperfeiçoamento. O que não quer dizer que eles disseram a mesma coisa ou deram respostas parecidas para questões em comum. Pelo contrário, cada a um, a seu estilo, ao seu modo, produziu as suas próprias questões, seus próprios problemas para então produzir suas próprias respostas, porém destruindo a mesma Verdade. Cada um produziu a sua verdade. E é aí que o negócio pode ficar mais tenso, delicado e por isso, mais interessante.
            Nenhum desses apresentaram suas propostas dizendo “olha, mas pode ser assim também”. Todos afirmaram suas verdades. “É assim também.” Cada verdade cria um mundo e cada mundo criado na diferença está implicado com a possibilidade do outro existir. Se o desejo pela Verdade inventado pelos conhecidos modernos impossibilitava a invenção de outras verdades que não estivessem no mundo da Verdade, as verdades inventadas por estes pensantes artistas são grávidas de outras verdades ainda não inventadas. Nesse sentido, a distinção entre verdade e mentira não faz sentido. Só existem verdades que engendram outras verdades.
            As verdades, como todo mundo sabe, não são coisas fáceis de serem produzidas. Não são assépticas. Não são tolerantes. Não são apolíticas. Não são ingênuas. Não são inócuas. Não são simples. Não são equilibradas. E não são seguras. E por isso é sempre risco. Alguns estão acostumados a pensar Verdade como aquela que resolve e acalma, que cessa a busca. Na verdade, pode se apostar na verdade como o desencadeador de outras buscas, mesmo que cesse uma busca anterior. Apostar na verdade sem se opor à mentira, destruindo a distinção entre verdade e mentira (todos produtores de verdade ou todos produtores de mentira) é apostar numa invenção constante, viva, a qual precisa ser exercitada por aquele que põe pra funcionar. Por isso não nos adianta muito que estes viveram e inventaram outros mundos. Precisamos também assumir a posição de inventores de verdades, mesmo que estas sejam engendradas por outros que não nós.
            E se você terapeuta apostar que todos somos esquizos? E se você artista apostar que tudo o que produzimos é arte? E se você crente não mais acreditar numa metafísica endeusadora? E se você pesquisador apostar que tudo que produzimos é mentira ou que tudo que se produz é verdade?
Provoco a pensar estas verdades como produtoras, ao invés de questionamentos de mentira, produção de outras verdades grávidas de mais vida. Quem arrisca? 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

pobreza não é virtude. riqueza não é defeito. opressão não tem classe social.

¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹¹²²²²²²²³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³³

A morte é de um silêncio ruidoso... ruindo  faz ouvir a voz que grita: vida!

 °°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°

Eu não sou gay todo dia. Tem dias que sou cool; outros sou bad, boring, funny, good, smart, intense... Changing, sempre!

arte e +louCURA

arte é modo. não é objeto. e tenhuzdito.

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨6¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Arte é coisa necessária.
Não para o público, principalmente para o artista. Mas isso nada tem a ver com exibicionismo e sim com o risco de despertar controvérsias inimagináveis na produção outra.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@2@@@@@@@@@@@@@@@@22222222222 


Artista é aquele que, contudo e com tudo, sabe dar vazão e razão à sua loucura.

 +++++++++++++++++++++++++++++++++++=================================------------

Não acredito na arte como terapia. Acredito na arte como expressão. É que a cura de muitos está na possibilidade de dizer!


¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬66666¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬


Não existe alunos deficientes. Existem escolas deficientes.

&&&&&&&&&&&&&&&


Artista que não diz o que tem que dizer com sua arte, não tem o que dizer. E tenho dito.

°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°

O louco não sabe que é louco. Apenas vive: loucamente!
Você se sustenta na parede da instituição.
Aqueles sustentam a parede da instituição.
Outros bombardeiam a parede da instituição para dar lugar a outros monumentos bombardeáveis.

A invasão do Brasil -+1500

Quando os critulitis chegaram ao nimubos, os faituktins ficaram Innynatisqui. êêêêê BRasil!
Que me intriga não são apenas as crianças na rua,
é que aceitemos que há lugar para crianças na rua;
que me intriga não são apenas os mendigos nas ruas,
mas os mendigos queimados nas ruas;
que me intriga não é apenas o pedinte da esquina,
mas esquecer que tem gente pedindo na esquina;
que me intriga não é a diferença,
mas a naturalização da indiferença.

tentativa II

Esse negócio que professor ensina, não rola. o aluno que aprende.
O professor provoca. 
provocador
provoca dor
a dor de pensar
pro odor
rastro de sentidos.

 **********

Esse negócio que professor ensina, não rola.
o aluno que aprende.
O professor provoca.
provocador
pro odor
rastro de sentidos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Show da louCURA 5 - relatos de um proxeneta

Entre conversas e causos... Melanie Klein, bem nasalizado. Entre a dificuldade de um de entender o que se passa nessa conversinha do “atravessando o travessia”, digo: tenho uma história para contar, era um homem que é de fevereiro, fevereteiro; de março, marcereteiro. Claro, não? Entendeu? Alguns sim, alguns não, alguns...
Na madrugada, um humano demasiado humano repete ‘a dor diz, passa momento, mas o prazer quer a eternidade’. Eterniza aquele momento de dor, toalha molhada na cabeça, ronco, fungados e muitas flatulências. Pergunta com voz cavernal de algum intelectual com crise de sinusite.
- Você tem medo de quê?
 - hum... (querendo fingir dormir)
- Você tem medo de quê? (Insistente)
A pergunta acorda uma inquietação há muito presente. O desejo de produzir resposta ainda mais inconclusa toma corpo e um possível diálogo se inventa.
- Tenho medo de desaparecer.
- Tenho medo de ficar só.
- Tenho medo de perder o controle a qualquer momento.
E a voz sinusitante cria entendimento:
- Eu também. Temos os mesmos medos: da morte, de ficar sozinho e de enlouquecer.  Você já se sentiu próximo a isso? Perder o controle?
- Sim. Sempre.
A loucura é de uma lógica da comunicação velada, muda, todos falam com todos, mas é como se eles falassem só com o imaginário deles-outros.
foto: Marina
foto:Marina


E o show da loucura atravessa a sua sexta edição, na madrugada de uma quarta, num quarto universitário. Na quinta edição, posterior à sexta, na manhã da quarta-feira, falas concisas, desejo de texto claro, tão claro que é capaz ser projetado para fora da conversa, num futuro dialético impossível e adoecido. Enquanto isso, o nome que não saiu na programação, o refletor que não acende, o data show que precisa ser desligado, as luzes que precisam ser apagadas. Preciso de amigos, muitos! Uns cantando junto, outros apagando as luzes, outros acendendo luzes, um para operar o data-show. Acontecimentos da memória.

A memória dos dias se constrói entre o que se retém e o que se esquece (de novo, de novo, até ficar inaudível).
A ação começa. Na entrada, a saída da mesa com a viagem da música: “eu vim de longe para encontrar o meu caminho”, cheguei à UNICAMP.
PERSONAGEM (Folheia o caderno e lê). No pano branco são projetadas imagens de fachadas de Hospitais psiquiátricos. E imagens internas também, se forem conseguidas com autorização das entidades.  P.S.: O Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, em Campinas – SP, talvez autorize imagens.

Ao fundo da cena, por acaso, na síntese disjuntiva de criação, na falta das imagens artificializadas de hospitais, resta a imagem da UNICAMP.
Logo um corpo nu, é performance, sempre um corpo nu. Diferença entre teatro e performance, pois o figurino essencial em performance é o nu, em suas múltiplas formas em devir.
Uma plateia atenta. Mas as luzes ainda acessas. Quanta clareza!
- Alguém poderia apagar a luz, por favor?
Um corpo apressado vai e volta, volta e vai, para certificar-se de que estão todas apagadas. Surpresa! Uma ainda acesa.

**No pé de um amigo uma frieira. Doença. Um corpo que resiste a produção do fungo. Saúde. Desdobra e dobra de doença-saúde na criação de vida.
Mas ainda havia luz lá fora.
- Por favor, alguém poderia fechar as portas?
O corpo amigo atento, volta e vai, prontifica-se. “Clack.”
- Será que a porta só abre pelo lado de fora? Aguardemos.
Desconforto na disritmia do coração. Na projeção, corpos e grades e locais para clausura na diferença, loucura. Loucura da clausura. Forma acadêmica, sintoma endêmico da citação descartável, clausura bibliográfica. Mas agora, criação na clausura, fuga à clausura, louCURA. Sem separação entre o NAC1 e o NAC2.

foto: Marina


Discussão sobre sexualidade, homossexualidade. Filosofando, um amigo proxeneta expõe suas conclusões de pesquisa empírica: cavanhaque e ou moto com compartimento traseiro é indício de práticas homossexuais. Comprovação analisável in loco no Parque Taquaral, em Campinas, no qual práticas homossexuais masculinas acontecem, assim, tranquilo, à luz do dia. Naturalidade cotidiana como o quiosque, a árvore, o vento, as árvores, os gatos, os trilhos do bonde, o lago, os patos. Uma fuga da clausura social de padrões doentios. Loucura? Criação! Uma possível linha que perfura o cotidiano burlesco de um parque ao redor de mansões familiares de classe média. Corpos masculinos, tesos e criativos, resistentes. Uma fuga dentro da clausura. Um possível na criação de novas relações sociais. LouCURA.
Voltando ao causo dos cavanhaques e compartimentos traseiros para motos, seria isso o grande fetiche daqueles grupos de motoqueiros, ali cavanhaque e compartimento traseiro para motos é unanimidade. Por isso devem andar em grupo. Delícia. “Então era isso”. Será? Desconfio.

No intervalo, meu amigo especialista em cavanhaques e homossexualidades compartimentadas em motos, preocupa-se:
- Não posso esquecer a cueca. Se eu perco a cueca é sinônimo de problemas em casa. E imita, com tom de voz agudíssimo sua mulher: “Cadê a cueca?”. A gente às vezes cria também nossas clausuras para nos proteger da loucura em caos.
Em performance, a amizade foi capaz de trazer uma possível cura. A loucura que é clausura cria doença, mas também cria cura. Fuga possível na escrita, louCURA que é capaz de criar e criar e criar e...

foto: Marina


A performance não é o fim de uma obra, mas inícios em obra. Linhas de cura que desformam a forma, na academia, no manicômio, na Vida!


Este texto foi produzido graças a vivência durante a participação do evento V Seminário Conexões – Deleuze e Território e Fugas e...' e o 'XII Simpósio Internacional de Filosofia – Nietzsche/Deleuze', ocorrido entre os dia 20 e 23 de agosto de 2013, na UNICAMP, em Campinas - SP, no qual acontecera o Show da loCURA 5.

Trecho do texto “Solidão (o mundo é merda)”, Edson Costa Duarte [vivo]. Disponível em http://duarteazul.no.comunidades.net/index.php?pagina=1206516972 . Direitos gentilmente cedidos a mim.