terça-feira, 27 de março de 2012

Que pode a arte na Academia?

Arte (marca) performance palavra academia cria pensamentocomocorpointeiro corpoalíngua: Viva!
Marcas “são estados inéditos que se produzem em nosso corpo, a partir das composições que vamos vivendo (...) são sempre gênese de um devir.” (ROLNIK, 1993 p. 2) São acontecimentos que vão além de um desejo controlador do sujeito, que o retira de seu lugar cômodo e o conduz a outras terras, “não é ele (sujeito) quem conduz, mas sim as marcas.” (ibidem, p.3).  São encontros que não permitem continuar o traçado antes imaginado. As marcas conduzem a novos cominhos fora do roteiro de início. E podem ser re-ativadas, são acontecimentos sem fim. Do encontro, reativa outra marca que já se torna outra.  A marca feita pelO abecedário Deleuze e o seu P de Professor. Neste encontro, Deleuze relata que a aula, apesar de ser breve, é fruto de uma longa preparação. Diz que fazia poucas ou nenhuma pausa para intervenção dos alunos, acreditava que inquietações importantes só se produziam, de fato, após uma semana do encontro. Por isso não considerava muito as interrupções e desacordos momentâneos dos alunos. Talvez precise ainda de anos para certas inquietações, já outras, exigem ser movimentadas, as marcas gritam.
Fazem voz algumas marcas dessa confusão em mim e algo se produz um pouco inteligível.  Este texto tenta usar a inteligência não a serviço de um movimento puramente intelectual, mas usá-la “a serviço de uma escultura do tempo, a serviço de um devir-outro.” (ibidem, p. 6) Esculpir por um breve momento com palavras o tempo. “Escrever é esculpir com palavras a matéria-prima do tempo, onde não há separação entre a matéria-prima e a escultura, pois o tempo não existe senão esculpido em um corpo, que neste caso é o da escritura, e o que se escreve não existe senão como verdade do tempo.” (Ibidem, p. 9) Mesmo que efêmero, pois meu compromisso não é parar no tempo, nem parar o tempo, mas atravessar e minar todo o território, aproximando toda segmentação que se achava possível. Constituir-se não como um corpo com ideia que fala através de um texto, mas um corpoideiafalatexto. Corpos Informáticos, violentado por suas marcas diz que “A arte é pensamento, mas pensamentocomocorpointeiro, descoberta a cada resto e a cada novo re-sentir a criação.” (MEDEIROS, 2011, p.26). A ideia como corpo. A fala, singular, única, como única expressão possível sem compromisso com uma linguagem vigente, mas criadora de outro estado de expressão, inteligível texto, no qual a distinção entre corpo, ideia, fala e texto já não existe.
 “Só se pensa porque se é forçado”, violentado, marca Rolnik. Os Corpos violentados, marcados pela/na academia pensa arte. A arte não como coisa, objeto posto em museu, obra de arte de galeria, produto vendável em leilão conceitual, mas ‘comocorpointeiro’. Modo de pensar. Podemos, por um breve momento, pegar de assalto a designação do movimento nascido no início do século XX para fazer inteligível o pensar arte ‘comocorpointeiro’. Fruto dos ismos – Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo, Cubismo – a Performance art ou Arte da Performance é marcada pelo abandono ao objeto e/ou obra prima artística, propõe abertura à experiência não reproduzível, criadora do novo, para isso, recorro a RoseLee GOLDBERG:
O desdém para com o objeto de arte estava associado ao fato de ser visto como mero fantoche no mercado de arte: se a função do objeto de arte devia ser econômica prosseguia o argumento, então a obra conceitual não podia ter esse uso. Embora as necessidades econômicas tenham dado vida breve a esse sonho, a performance – nesse contexto – tornou-se uma extensão de tal ideia, apesar de visível, era intangível, não deixava rastros nem podia ser comprada e vendida (2006, p. 142).
Além de demarcar uma distância do mercado de arte, a Arte da Performance buscava fundamentar-se na experiência, no processo, não na produção de um objeto ou obra, produto finalizado de arte. A arte não monumento, não obra, não objeto. Desse modo, propõe outra relação com o espaço, tornando-o determinante, porque
“o lugar em que a obra acontece, esse grande objeto, é parte do efeito, e, em geral, pode-se vê-lo como o primeiro e mais importante fator a determinar os acontecimentos (o segundo eram os materiais disponíveis e o terceiro, os atores).” (OLDENBURG apud GOLDBERG, p. 124).
Desse modo, determinada pelo espaço, a performance impossibilitava seu deslocamento como objeto de arte. Diferente do teatro tradicional que reproduz um espaço conveniente à ação – cenários – a performance produzia-se a conveniência do/no espaço. Muda-se de espaço, muda-se a performance.
A atenção ao espaço no qual a experiência se dá torna-se fator determinante para o acontecimento artístico. Isso nos interessa: Pensar arte na academia.  Informamo-nos com os Corpos Informáticos, que violenta, procurando outro fazer artístico na/da academia, abandonando a já capturada Arte da Performance, que diferente da preocupação de Goldberg, e que tem dado vida longa de mais ao acontecimento performático. 
“Com a performance tornando-se tema de exposições (Marina Abramovic no MOMA, e 100 years: a history of performance art no PS1 em Nova York simultaneamente) e se tornando institucionalizada, sua efemeridade se submete a consagração.” (AQUINO; MEDEIROS, 2011, p. 195).
E marcados, forçados a pensar, a criar, fazendo arte, os Corpos continuam: “É necessário pensar novas infiltrações: não mais diremos que nossas performances são efêmeras, diremos que são vagabundas, deslizam vadias entre os vãos absorventes.” (Idem) São fuleiras. Sem preço, sem objeto, mas produção do novo.
Pensamento outro violento de performance que contamina o texto vem do grito do corpoalíngua de Clarissa ALCANTARA:
Performance. Nada a dizer. É que alguns corpos não aguentam mais esses lugares demarcadores de linguagens, enunciados forçados enterrando palavras de ordem feito estacas, lugares que estriam sobre o corpo esteticismos éticos, reduzem suas forças, alienam seus possíveis, castram-no, assopram o buraco da ferida e distribuem pasto comprado para se comer. Há corpos famintos das areias do deserto, há corpos brilhantes, grãos indiscerníveis, que, em se tratando dessa ética, também não querem saber nada disso, mas justo porque não se encontram atados a ninguém. (2011, p.11-12)
Romper com o já conhecido, já instituído. A performance mina, pulveriza, ventila, areja, alveja, faz brilhar, contaminando outros territórios da arte, da vida. O corpoalíngua é fuleiragem, porque busca outras infiltrações para arte da performance, não busca a consagração, mas provocação, provoca ação, mina a linguagem da performance, e contamina-se dela, e contamina a arte, fazendo da performance coisa outra.  A performance corpoalígua não domina a linguagem, não quer nada, porque já é só desejo. “Se o desejo produz, ele produz real. Se o desejo é produtor, só pode ser na realidade, e de realidade” (DELEUZE; GUATTARI apud idem). O desejo não busca ideal, não projeta imagens no futuro, não espera resultados, só vive. Só deseja. Só deseja o real e constrói realidade. É um corpo que produz com outros, e torna-se corpo outro. Que sabe dizer sim, mas diz palavras que não institui ou demarcam linguagens porque é singular, expressão única, em dado momento da escritura do tempo de Clarissa, no espaço acadêmico da literatura contaminada pelas filosofias da diferença. “Contágio. A peste tem a força de uma revolução molecular. Toca-se e se é tocado sem a precisão de um saber seguro sobre o que se deixa tocar e o que toca no mais longínquo.” (ibidem, p. 14). E segue contaminando-se e contagiando outros tantos territórios, que se espalha em N3Ps, em Cia. Teatral Ueinzz. É só língua sem linguagem. É coisa que se constitui pelo espaço no breve tempo do acontecimento infindável. É marca que produz outras marcas; marca, demarca, des-marca, e marca. Sem opor uma marca a outra, mas sempre composição de marcas que gera outra, gêneses de um devir.
Corpoalíngua. Na invenção deste conceito a palavra-valise se desobriga de suas funções lingüísticas e foge da ordem dos enunciados supostos em sua estrutura de logos. Já são várias e carregam vários sentidos. Por ocupar espaço rarefeito, ela mesma é desestrutura, “forma lacunar retalhada”. Desmanchando de outra valise – corpoemaprocesso, contraindo, por roubo, outra, alíngua – o conceito criado de corpoalíngua permanece nômade, sem resistência, sem território fixo, numa resistente inconstância a-significante(...) (ibidem, p. 10-11)
Corpoalíngua vaga por territórios deslizantes: corpoemaprocesso – pesquisa vinda da Literatura; Lalangue ou alíngua de Lacan, tudo fundido, fudido, em constante performance sem objeto e sem valor, fuleiragem. O que não permite sua limitação, mas abre às multiplicidades de todo conceito. É corpo sem linguagem. Que gagueja. É corpo que se faz língua, coisa única, impar. Não é sem língua, é a (artigo)+língua. Singular. Corpoalíngua. Arte de falar.
Corpoalíngua é arte. É pensamentocomocorpointeiro que produz novo. Pensamentocomocorpointeiro é corpoalíngua. É arte. Na diferença. É arte na/da academia.
“A arte trata, maltrata e trai a técnica ou a tecnologia”. (MEDEIROS, 2011, p.16). Corpos Informáticos e Corpoalíngua trata, maltrata e trai a técnica ou a tecnologia da academia, da linguagem acadêmica. É aglutinação de palavras, hífens intermináveis, palavras desmembradas, neologismos que só são inteligíveis, dado aquele contexto único. Efêmero. Isso. Por isso é corpoalíngua, não linguagem. Requer esforço para deixar com que as marcas conduzam a um território gramaticalmente novo, abandonando todo mundo de significado. Difícil tarefa para um território acostumado, legitimado por uma significativa tradição baseada na possibilidade da clássica linguagem. “O ser humano se constitui pela linguagem. É pela linguagem que ele se torna sujeito e membro de um grupo social.” (ibidem, p. 30) No entanto, quando a linguagem, continuam os Corpos, “torna-se objeto de conhecimento, deixa de ser espaço aberto ao sensível e se abole como ‘força de fascinação’” (Idem, p. 31) Por isso arte na academia: para o novo. Por isso língua, não linguagem. Para Corpos brilhantes, famintos da areia do deserto, que não estão atados a ninguém, só a outros corpos indiscerníveis. Um corpo. Corpo outro. Outro. Mas não é a análise da arte, de obras, de uma técnica de produção artística ou metáfora a respeito da criação que fazem pensamentocomocorpointeiro. Nem uma metodologia da arte. É diferença.
Claudia Meireles compartilha sua experiência, fruto do trabalho que realizou nas ruas. Em uma travessia de pedestres, controlada por semáforos, decide movimentar-se perpendicular ao fluxo de movimentação das pessoas, realizando o movimento paralelo ao dos carros.  Desse modo, provoca os transeuntes. Escuta observações como “ela está louca”, “Prende ela seu guarda”. Assim, apresentava-se num fluxo de movimentação diverso ao da massa que atravessava a avenida, desejando, o mais rápido possível, alcançar, sem muitos obstáculos, o outro lado. O que fazer quando há alguém a sua frente, num movimento, fora de sua lógica de comportamento? Achá-lo louco é o mais lógico.
Para fazer-se entender, a professora, tenta então, transformar aquela ação em uma metáfora – meta para fora daquilo que é – dizendo, “é como se fosse você, Platão, diante de Deleuze”. Mas a questão é muito mais violenta, mais viva. Não é como se fosse, é. É Platão cruzado por Deleuze. Não é metáfora, mete dentro. Deleuze não foi para fora, mas foi tão dentro que vazou. Não é arte a serviço de um entendimento simbólico. É arte que produz real. “A arte é por si e em si, ela se basta.” (MEDEIROS, 2011, p.20). O artista com seu desenho não queria dizer isso, ele diz. Um texto, um discurso, uma fala que não seja a própria obra não é arte, é interpretação. É tomar o objeto artístico como desprovido de linguagem, o que seria até interessante, mas neste momento do pensamento, limita e tenta produzir teoria. Esta linguagem que esvazia a potência artística, criando impressionismo, surrealismo, achismos. “A teoria sobre arte pode ser entendida como pós-arte? A teoria não diz a arte: quando fala, não é mais a arte que fala.” (ibidem, p. 16). A linguagem é a mordaça da arte ou da obra, e tentar dar voz, categorizar surrealmente – para além do real – algo que se constrói na realidade, é desnecessário diante do que é necessário amar. O que não quer dizer que a partir da arte não se possa dizer outras coisas, mas quando se diz dela, já não é ela, a arte, quem diz, mas sua potência criativa que produz marcas que gritam pelo novo. Transforma arte em símbolo é desacreditar na sua capacidade de criação.
O simbólico, de fato, é o impossível, e não o real, dizem Deleuze e Guattari. O real se produz em toda parte. No real tudo se torna possível. O simbólico se forja a partir de territórios, forças contornos, circunda espaços, molda, domina, marca inevitavelmente um lugar, uma posição impossível de existir sem que dela se diga, nas infinitas circularidades do nome, o que é. Se não diz, se aparece aí um buraco, tem-se o imaginário para cobrir, e se este se assombra, corre-se de novo à estrutura. (ALCANTARA, 2011, p.38)
Por isso performance sem obra definitiva. Por isso fuleiragem sem valor de venda. Por isso pensamentocomocorpointeiro. Por isso corpoalíngua sem linguagem. Por isso arte. Por isso arte da/na academia. As marcas conduziram e continuam a conduzir. Performance, corpoalíngua produzem-se da arte como pensamento, pensamentocomocorpointeiro. Um corpo cansado de ser conduzido por um mundo simbólico, que nega realidades outras. Um corpo que deseja arte. “A questão aqui é o desejo produzido em usina, irredutível a uma estrutura orgânica simbólica e imaginária do sujeito.” (idem) É coisa que surge em outra lógica, em consciência outra, como a vontade inconsciente de transitar em fluxo perpendicular ao que é posto, ao que é pasto pra se comer, ao que é imposto ao imaginário acadêmico. “O inconsciente é maquínico, não imagina, não simboliza nem figura; é ele o Real e a sua produção.” (idem) São as marcas que conduzem, que não simbolizam, mas produzem realidades.  Urgências. Vida. Que desejam, marcas como usinas de desejo. Urgência de vida. “A arte traz o real à tona, desnuda e torna translúcida a carne do corpo de um mundo, escancara as relações sociais, econômicas e políticas sem instituir sistema: proposta. A arte vai buscando escapar a dissecação da linguagem.” (MEDEIROS, 2011, p. 31). Pensamentocomocorpointeiro ou corpoalíngua não são linguagem nem demarcação de território, se o for, é por breve tempo, é nômade. Não é receita, técnica ou metodologia. É, sobretudo, um “modo como se faz sua prática enquanto pensador” (ROLNIK, p. 12) de arte na academia que escapa a dissecação da linguagem 'academiscista'.
Quem pode dizer que isso é um objeto de arte? Tudo pode ser arte, e, se assim for, não necessitará de outra linguagem, senão de sua própria língua para existir. Adeus críticos de arte. A Deus!
 Porque se a performance surgida como alternativa ao mercado, que propunha o abandono ao objeto de arte e ao espaço institucional, hoje já se tornou linguagem, este texto se faz falando da arte enquanto criação, que não é técnica, senão, como técnica para trair a técnica. Arte como comunicação, como marca que conduz e produz desejo do/no real, não no imaginário e simbólico. Isso sim. “Arte é comunicação não-linguística, voz do corpo e cor do grito. Trata-se de criar um outro do discurso, a ordem do grito. Grito do ser humano, Significações incertas. A indeterminação é desejada: obra aberta. Esse grito não diz nada.” (MEDEIROS, 2011, p.34). Interessa não um saber “mas um aprender, um criar”. É criar um outro do discurso da arte. Um outro do discurso acadêmico. O exercício do pensamento, da pesquisa como arte. Não aquele pensamento que se costuma demarcar como território para arte, com uma “estetização fetichizadora, folclorização romântica, alucinação militante.” (ROLNIK, Quarar Almas, p.8) Como coisa bela, equilibrada, que traz alegria, prazer em entreter e se identificar com seu público. Pelo contrário, arte como marca, como violência, “que dissolve a cegueira do hábito”, marcada após ter a alma quarada. É movimento inconsciente, não-linguistico, sem linguagem, sem querer, mas fruto do desejo de expressão, do não-saber fazer de outra forma, de não aguentar mais esses lugares demarcadores de linguagens. Vislumbra horizontes inatingíveis, mas, como e com os Corpos Informáticos, prossegue esboçando possibilidades composicionais fugidias, pois, vivas.
Criação não-linguística. Arte. Produção de desejo de real na realidade acadêmica, fruto de muitas marcas violentas, contágios impossíveis de serem evitados. Assim, faz-se arte, assim faz-se Corpos Informáticos no centro do Brasil, deixando ver, com suas performances, seu corpoalíngua. O pensamentocomocorpointeiro acaba por produzir um corpoalíngua desejoso, brilhante em Casa Branca, nômade que transita pelo sul do país, São Paulo, Ouro Preto, Belo Horizonte. Faz do corpo língua, abandonado de todo seu ego, num movimento inconsciente de marcas que gritam pelo novo. Que criam novo. Ainda bem que a vida está em obra, ainda bem que a academia pode ser obra de arte.


Produção a partir das marcas do encontro entre arte, Corpo Informáticos, Corpoalíngua, Corpo-pensamento, Educação - PPGE - UFJF - 23/03/2012.

Bibliografia:

Abecedário Deleuze. P de Professor (Parte 3). Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=hQ6f0KClnc8. Acessado em 10/05/2011.

ALCANTARA, Clarissa de Carvalho. Corpoalíngua: performance e esquizoanálise. 1 ed. – Curitiba, PR: CRV, 2011.

GOLDBERG, RoseLee. A arte da performance: do futurismo ao presente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

MEDEIROS, Beatriz de. Pesquisa em arte, linguagem da arte ou Como escrever sobre o pensamentocomocorpointeiro. In.: AQUINO, Fernando; ______. (Org.) Corpos Informáticos. Performance, corpo, política. Brasília: Editora PPGA, UnB, 2011.

ROLNIK, Suely. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico. Cadernos de Subjetividade PUC-SP. São Paulo, 1993. Texto transcrito pelo Grupo do Laboratório Ser Terapeuta – Movimento 1, em abril de 2008.

ROLNIK, Suely. Quarar a alma. S/D. Link para acesso digital pela página da autora: http://caosmose.net/suelyrolnik/pdf/quarar_a_alma.pdf

segunda-feira, 19 de março de 2012

Apresentação: malhar com arte trai a academia



Eu sou, no mínimo, o homem mais terrível que até agora existiu; o que não impede que eu venha a ser o mais benéfico. Eu conheço o prazer de destruir em um grau conforme à minha força para destruir – em ambos obedeço à minha natureza dionisíaca, que não sabe separar o dizer Sim do fazer Não. Eu sou o primeiro imoralista: e com isso sou o destruidor par excellence.
Ecce Homo - Nietzsche
Provocado.
Apresentação. Não sou mestrando; não sou doutorando. Não sou professor, estava professor de Arte, porque não sou licenciado. Sou reprovado por 5 programas distintos de Pós-Graduação. Ainda não me cabe a academia com seus halteres pesados. Não trabalho. Desempregado? Nunca fui empregado, pregado. Não sou ator, nem sei se posso interpretar além de um eu tão fugidio e obsoleto.
Como alguém se torna professor? E de Arte?
Chamava-me performer, mas agora, muito americanizado, estadunidense de mais; sou mais fulero que isso, Corpos Informáticos[1] são.


foto: Magno Mattos
“Eu to botando dúvida
Eu to botando defeito
Eu to prestando pra nada
To ficando obsoleto de mim
Ficando absolutamente não afim
(...)
Eu fico frio de medo
Eu fico cheio de dedo
Eu to prestando pra nada
To querendo me livrar de mim
Eu fico transparentemente não afim.”[2]


MPB. Música pra boi dormir. To aqui sambando a música da existência no desejo de estar, tentando me livrar do obsoleto de mim, fazer do encontro da malhação outra tonicidade. O que me resta é seguir algumas pistas. Primeira pista: arte.
Mas não só da arte linguagem, forma técnica, dança, teatro, arte cênica, plástica, visual, mas é que
“A faceta prática da arte é da mesma natureza que dirigir com arte, cozinhar com arte, pintar com arte. No momento da criação, da realização, da volução, os atos desses artistas dar-se-ão sem pensar os passos, a cada passo.” (AQUINO; MEDEIROS, 2011, p. 16).


Desse modo, buscando abandonar as dicotomias pensamento/ação, razão/emoção, teoria/prática, investir na relação, no sexo, na penetração, no emaranhado, rodando sem objetivo, sem manter um movimento apenas, na volúpia. Tudo num tempo único. A arte não como produção de objeto, coisa posta em museu, galeria, produto vendável, vendido na liquidação leiloeira de conceitos. Corpos Informáticos brasilienses do Brasil do mundo faz cutuque, dá outra pista: “A arte trata, maltrata, trai a técnica ou a tecnologia.”(Idem.)Ui!


Eterno retorno à academia da forma, busca por forma outra. Malhar, malhar, malhar: repetição que gera diferença, território transitório e potente, criação, que não se opõe a identidade, mas perfura-a artisticamente, des-dobra-a em identidade nômade. “A arte como pensamento, mas pensamentocomocoporinteiro, descoberta a cada resto e a cada novo re-sentir a criação.”(ibidem, p. 26) O que interessa é o pensamento outro da arte, que se faz ‘comocorpointeiro’. A vida como obra de arte, única, não reproduzível, instante que passa, mas fica. Acontecimento sem fim. Academia como obra de arte. Possível? Informo-me.
Vem a necessidade de falar, falar, falar.


“O candidato não apresentou, no texto da prova, conhecimento e capacidade crítica sobre o tema proposto. O discurso é vago, inconsistente e não atende aos requisitos de clareza, coezão e coerência.”[3]


A técnica de criação humana acadêmica trai a técnica do Word gramatical. Ou a técnica do Word gramatical trai a técnica de criação humana acadêmica. Ual! O que me resta neste momento é isso, constituição de mim, transparentemente, falar, na busca de coerência, coesão ou, com “z” zão, clareZa: e “O verbo se fez carne”, corpo, um corpo, sem posse, sem dono, de todos, mas de ninguém, “Assim, o corpo sem órgãos nunca é o seu, o meu... É sempre um corpo.”(DELEUZE, 1995-1997, p.28) Com janela, caneta, vozes no corredor, Fabrício, Cristian, Zilpa, Margareth, Éricas, Tarcísio, Marco’us, Sônia, Nina... Lillian... um corpo de estudos, num corpo da Educação, num corpo UFJF, num corpo. Outro.


E esse corpo fala? Como fala. Como falar? Línguas, sem linguagem, língua outra, La langue, alíngua corpoalíngua[4]. Eis o desafio acadêmico da arte. “A arte é comunicação não-linguística, voz do corpo e cor do grito. Trata-se de criar um outro do discurso, a ordem do grito. Grito do ser humano. Significações incertas. A indeterminação é desejada: obra aberta. Esse grito não diz nada.” (AQUINO; MEDEIROS, idem, p.34) Corpos Informáticos diz. Grita. O que ainda não foi dito? Que? Gritar!


Não importa, a mim, clarear nada, “não afim”. Sem luzes. Se a mim interessa o clarão que seja da ordem da cegueira leitosa, cegueira branca sarama-guia-na, que mais turva que deixa ver, que aciona outros sentidos além do costumeiro ver.


Medos. Demasiado. Da morte não, pois já disse Cazuza, “morrer não dói”; mas alerta Guimarães, “Viver é perigoso!”. Sertão ou metrópole. Sertão de metrópole. Seca acadêmica, e ainda assim, criar vida. Temo viver, depois de des-crer na imortalidade da alma e ter certo o findar biológico. “E a vida! E a vida o que é? Diga lá, meu irmão”[5] Quando, como, por quê? Que venha a morte, pois esta vida é muito incerta e também deslumbrante. Ai! Paradoxo. Aqui estou. Tornando-me.


Arte pra maltratar, tratar e trair a técnica, a tecnologia acadêmica, a técnica gramatical do Word, da palavra acadêmica. Endêmica. Buscar linguagem outra, que seja mais que comunicação, que seja expressão do novo, não da novidade. Coesão com “z” é a traição da técnica que cria língua, sem linguagem, expressão. Não quero nada além da experiência, ao que escapa à correção gramatical programada e que se faz entender, sem ser tendencioso, mas tencionando sempre, mesmo dentro da academia.  Formação de professor sem técnica, sem licença. Técnica outra, licença outra. Com licença poética, de criação. Arte. Pensamentocomocorpointeiro. Formação outra. Eis o desafio.


Torço para que um dia eu possa dizer: Eu sou nada! E nada seja falta, mas possibilidade, potência de tudo, apenas vida!




Referências bibliográficas:


DELEUZE, Gilles. Como criar para si um corpo sem órgãos. In.:______. e GUATTARI, Félix. 1995-1997. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34.
MEDEIROS, Beatriz de. Pesquisa em arte, linguagem da arte ou Omo escrever sobre o pensamentocomocorpointeiro. In.: AQUINO, Fernando; ______. (Org.) Corpos Informáticos. Performance, corpo, política. Brasília: Editora PPGA, UnB, 2011.



[1] Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos, criado em 1992, no Programa de Pós-graduação em Arte – UnB.
[2] Altos e baixos. Música. Interpretação Roberta Sá. Disponível em http://robertasa.com.br/site/discografia/?mith&categoria=albuns&pasta=1. Acessado em 17/03/2012.
[3] Parecer final da banca, na integra, em resposta ao recurso da 2ª fase Seleção 2012 – PPGE – UFJF, grifo meu.
[4] Ver mais em ALCANTARA, Clarissa de Carvalho. Corpoalíngua: performance e esquizoanálise. 1 ed. – Curitiba, PR: CRV, 2011.
[5] Trecho da música “O que é, o que é?”. Gonzaguinha. Disponível em http://letras.terra.com.br/gonzaguinha/463845/ Acessado em 17/03/2012.




produção partindo das provocações do primeiro encontro do Grupo Corpo-pensamento e Educação, PPGE - UFJF, 16/03/2012.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

um conselho mentiroso

Vou deixar meu protesto a favor da mentira. Não que eu seja enganador, mas quero mentirosos plenos. Que adianta meias mentiras? Comece, não revele nenhuma mentira. Minta a cada momento, a cada relaxar e contração dos pulmões; minta sem medo de ser descoberto, afinal, uma boa mentira verdade dita será. Minta com convicção, o importante não é o que se fala, mas como se fala; minta com os olhos, desejo sem desejo, desvie quando olhar. Articule a boca, trave a língua na hora do beijo, ou finja paixão quando houver nojo; afaste o corpo do tesão; aproxime-o do asco. Grite: Eu quero! E ao mesmo tempo, cale não quer. Cuidado!
Mas vai um conselho de um mentiroso: minta sempre, porque, pior que verdades descobertas, são mentiras mal ditas.


julho 2008]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

COTIDIANO



Hoje sonhei com você.
Estava tão normal, tão natural.
Beijava você sem muita cerimônia.
Estava num quarto sem nada de especial.
Alternava entre te beijar e olhar seu rosto com esse sorriso do dia a dia.
Percorria meu corpo no seu corpo com uma calma... um tempo.
Tínhamos tempo de não achar nada diferente. Era igual a outras vezes.
Meus lábios se abriam, meus olhos se fechavam.
Via seu corpo branco como vejo todos os dias.
Você me sorria sem muita pretensão.
Parecia uma segunda, não, uma terça... não, uma quarta!
Sei lá, podia ser qualquer dia.
Descubro seu peito, beijo seu pescoço, por vezes, mordo, como faço todas às vezes.
Brincava com sua boca, provocava, hesitava, depois cedia, me entregava.
Um tesão tão comum, como tantas vezes já sentido.
Olhava seus olhos risonhos, seus dentes brancos, o contorno de seu cabelo, o encaixe do corpo... nada tinha de novo.
Quando... Acordei!
A única certeza que havia ficado era o quanto adoro o cotidiano.



[janeiro de 2009.]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A morte da arte [continuação]

Reality Show

Close. Seja você no máximo que puder ser. Autêntico. Real. Único mesmo. Mesmo que periférico, se estiver linkado, através do blog do twiteiro mais famoso do facebook, com certeza criaram uma comunidade no finado Orkut, para divulgação de seu vídeo no youtube. Se não for nesta ordem, alguns desses termos se tornaram fórmula de sucesso na atualidade. Não importa muito a obra, importa quem postou, que comentou e compartilhou.
Oiticica já está em Inhontim: mesmo que cheirado pelos olhos e penetrado pela academia experimentalista.
Já não tem sentido fazer arte contemporânea. A arte perdeu sua função – ainda pior, conquistou uma no espaço-tempo pós-moderno dilatada.
É vazio inevitável, esvaziado é hora de relembrar, longinquamente, o Manifesto de Marinette.
Queime os Museus, as bibliotecas, renunciemos a qualquer alusão a arte conceitual, ao conceitual de arte. Morreu.
Voltemos à vida. A vida doída, difícil, marginal, mas viva! Mas também bela, mais bela que arte, que se supera e opera no todo.
Nem mesmo Burle é capaz de ser de dar conta de penetrar Oiticica. Ele foi penetrado, parangolizou. Viveu o balanço, a cor da favela, e antes, experenciou. Não leiloou.
É imoral. É antiético. Antiestético. É ineficaz manter Duchamp nos museus.
Vamos cheirar todo oiticica, quebrar a fonte de Duchamp, quem sabe assim alguém se move, se dói, me mata e faz vida. Ocupar vazios dos bits, das esquinas, das pontes, dos arranha-céus, com vida.

O fim da arte

A arte existe porque existe o humano. A arte é humano. A arte fala do humano pelo humano. Como ser humano sem ter humano?
Pregaram vida na arte, Stanislaviski, Grotowski, Barba, Artaud. O humano está condenado: estamos fazendo arte para os mortos: somos aquilo que comemos, logo, somos velhos, sem dentes, esqueléticos, carecas, pálidos, de língua enrijecida.
Arte não é história. Arte está criando história. E quando se torna história, já não é mais arte.

Dos experimentos

Stanislaviski não é possível viver um SE não vivê-lo de verdade. Grotowski não pode fazer teatro se não parar de representar. Barba, teatro é antropológico.
Mas Artaud não fundou o duplo do teatro, mas a própria unicidade da arte: não faz nenhuma peça porque sua vida foi a Arte. Testemunhou em cada escrito, em cada proposta, em cada experimentação, vivo!

Arte é vida!
“teatro e a verdade escondida” “teatro é forma de vida”, Augusto Boal.
Não nos serve nenhuma destas pesquisas sobre arte, tantos museus. Arte é vida, não pode ser enclausurada, adorada como um ídolo, sem v i d a.
Não nos tem valido olhar dia a dia para obras, objetos, locais, se não olharmos o humano.
Quebremos, enterremos, destruamos todas as obras de arte, todas as instalações, todos os objetos. Tudo que puder nos desviar o olhar do humano que agora agoniza frente a nós, atrás dessa quinquilharia de banheiro.
Esses olhos viciados que teimam ver mais do que não existe. Que busca ilusão.
Nossa arte não tem vida.
Temos que descobrir a vida para de novo voltar à arte ou quem sabe nem precisaremos mais dela.
Afinal, arte é a incapacidade do humano de ser claro com suas mazelas, de encarar a finitude da vida; é a necessidade de buscar no outro um olhar acolhedor, compreensivo, medíocre.
Ande, vamos viver!
Estou vivendo. Se não der certo alguém escreverá sobre ele. Continuemos os experimentos do Flávio: 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10...
Que cada experimento seja uma experiência de algo ainda não experimentado, de algo a ser vivido, vívido.
Que bom que não acredito em reencarnação, porque senão acreditaria ser o próprio Duchamp pagando seu carma.
Enterre a arte. Vá viver. E destrua isso.

Tecnologia

Certo que a arte é feita dos meios de seu tempo. Por que não se apropriar da tecnologia?
É tempo de denúncia. Denunciar a tecnologia que nos afasta pouco a pouco do humano.
Paradoxo.
É da natureza humana construir, produzir, cultivar, desenvolver-se tecnologicamente.
A tecnologia não nos afasta do humano, ela é o próprio humano. É humana.
O corpo humano é tecnologia. Resultado de uma adaptação e seleção de milhares de anos. É da natureza ser tecnológico. A natureza é a pura tecnologia.
Noção falsa a do humano achar que controla a tecnologia. A natureza já a fez. Essa natureza que negamos, mas que é a própria geradora de sua questão.
Fomos condenados por todos os deuses. Eles nos deram a consciência de ser falidos, finitos, ‘morríveis’.
Observamos um cachorro, ignorante da condição humana, incomoda-se com a presença de outro próximo ao seu dono. Ladra ferozmente, força, mobiliza cada centímetro de seus músculos para proteger o dono de seu melhor amigo humano.
Ele ignora, a priori, a relação do dono com aquele outro, estranho. Protege seu dono como única coisa a ser feita, não teme a morte, pois a ignora. Daqui a pouco, seu dono trocará sua presença canina pela presença única, pela única presença de seu amigo humano, para viver a humanidade com seu amigo humano.
Terá a sorte o cão de vê-lo ainda no mesmo dia. Mas mesmo que demore horas, dias ou meses, o reencontro com seu humano, dono, será como o primeiro: vivo!
Dirá você: mas o cão é o melhor amigo do homem. Não. É o homem que tem dificuldade de fazer amizades.
Construímos carros para chegar mais rápido. Paramos nas filas de engarrafamentos intermináveis. Processamos a comida para comer melhor, não comemos mais porque nos tornamos alérgicos. Fazemos balé, trabalhamos, cursamos línguas, freqüentamos cultos religiosos, não podemos descansar.
Temos que fazer TUDO, mas cada vez mais, temos mais vontade de fazer NADA.
Paremos de lutar contra a natureza. Nós somos a própria natureza. Não a natureza suprema, consciente, inteligente, racional. A natureza limitada, mas articulada com o todo. Não precisamos buscar entender o todo, tudo: o impossível. O todo se inventa, se transforma a cada instante por causa de suas partes menores.
Vivamos a parte, não à parte (impossível!), a parte humana. Nem mais, nem menos: plenos de humanidade.
Certos que morreremos, porque essa condição, mais que apatia, nos cria uma desafio: que será amanhã? Irá depender mesmo do hoje. Não existe ontem, nem amanhã sem hoje. O ontem se constrói hoje ao pensar sobre o acontecido; o amanhã se constrói hoje ao realizarmos o agora na incerteza do que virá.
Fazer, fazer, fazer... parar de pensar. Não dissociar pensar de fazer. Fazer é o próprio pensar. Pensar é criar.
Inventamos redes sociais virtuais. Somos incapazes de ouvir um “não” do outro. Somos insensíveis ao problema do outro que é nosso também. Mas achamos que temos que sensibilizar o outro como nosso problema cotidiano.
E mais fácil bloquear, deletar, postar uma frase de efeito, que efetivamente diga aquilo que você não temos coragem de dizer, ou pior, de ouvir, de sentir.
Bloqueamos, deletamos porque tememos ser. A virtualização apenas potencializa o que á atual. Isto é o sonho do inconsciente que é mais consciente do que se imagina. Mas isso a psicologia lacaniana, freudiana, deu conta de explicar. E o que tem valido em termos de mutação? Nada.
Poderíamos deletar todos os perfis virtuais, quebrar todos os aparelhos eletrônicos, mas de nada adiantaria: isso é humano e impossível de reverter, tampouco necessário.  Mas seria a solução radicalmente mais eficaz.

[ARTE]

A vida não suporta conforto. A vida não é confortável. A existência não é amena. É violenta. Sofrida. Primordialmente: um parto. O parto de cada dia.
Nesta vida cultural contemporânea humana tecnológica faço um apelo artístico: sede violenta! Porque lugar ainda potente de violência criativa é a arte. Mas não digo da violência da obviedade midiática. Dessa violência da invasão policial nos morros, das conversas políticas, das discussões dos diferentes, da imposição das ideias, das obras de Gil Vicente.
Essa violência é falida. Historicamente ineficaz. Tantas guerras no mundo antigo, europeu; duas guerras mundiais, civis, guerra fria, cambial, religiosa. Estamos como estamos, numa reatividade violenta e coletiva.
Escrevendo sobre arte. Absurdo!
Falo da violência individual ativa. Não individualista. A de se por em perigo. Não expor o outro ao perigo. É se matar, se violentar. Não se fixar no abrigo seguro do saber. É não saber, destruir o sabido. É ver a morte sem temê-la, mas não paralisar-se.
 Porque não somos deuses, ou somos os deuses de nossas vidas. E como deuses, podemos nos matar, uns aos outros, em nossas santidades.
Desafio: não apáticos, amenos, conformados, nem mesmo niilistas, pessimistas, mas vivos.
Dispor de vida. Dispor de prazer. Onde o gozo não é o fim, é apenas um descanso para outro gozo. E outro! E a dor virá.  E o gozo também. Dor e gozo.
Mas nem dor nem gozo move. O que move é o desejo. Desejo de vida. Desejo de desejo. Desejo é intensidade. Não gradação. Dor e gozo são próprios do desejo, instantes passageiros.
Será possível hoje fazer arte sem fazer vida.
Preciso ver na vida arte; ver na arte vida.
Artistas-pedreiros. Artistas-médicos. Artistas-motoristas. Artistas-educadores. Artistas-engenheiros. Artistas-fotógrafos. Artistas-donas-de-casa. Artistas-atletas. Artistas-farmacêuticos. Artistas-artistas.
Todos criadores de vida.
Na incapacidade de viver o atual, virtualizamos nossos direitos.
Temos a necessidade de sermos vigiados para que façamos alguma coisa. Sempre frente a deus. Ao olhar que sabe tudo, vê tudo. O olho de deus ex machina. Agora, o maquínico olhar. Exibimo-nos e nus.

Cuidado, você está sendo vigiado.
Sorria, você está sendo filmado.

Virtualizamos nossas relações, nos aprisionamos numa rede controladora. Mais e mais. Estamos assistindo e sendo assistidos, afronta a nossa privacidade. Virtualidade é apenas uma faceta do real. Temos que atualizar mais. O atual no liberta da vigilância, impossibilita o controle do olhar repressor, é a realização da potência do virtual. Sem o atual o virtual é só virtual. Atualizemos o virtual, virtualizemos o atual, numa contínua troca.
Cuidado: não vivemos na democracia. Vivemos na ditadura da moda, do comportamento moralista, do consumo crescente. E sabemos algumas conseqüências.
Havemos de nos libertar. Será que precisamos de tanto, se os beneficiados são poucos?
Quem são os beneficiados?

Artistas-inventores

Artistas, aprendamos com o grande Santos=Dumont. Ou não tão grande assim, pequeno na estatura. A arte está morta, falta nos matar junto dela.
Esqueçamos nossa assinatura. (Ai Duchamp, Barthes, já disseram sobre isso!) Santos=Dumont quis unir duas nacionalidades tão distintas. Brasil=França. Verdade ingênua. Ora fomos colonizados por eles, por isso nos tornamos. Comemos seu pão de ló, vestimos seu soutien, e ascendemos o abajour para ler Baudelaire.
 Santos=Dumont não pateteou nenhum de seus inventos. Inclusive sua máquina voadora mais pesada que o ar. Foi respeitado enquanto vivo, digno de homenagens francesa e brasileira.
Foram 14 bis. Não assinou nada. Só o fez. Há quem tenha dúvidas – os norte-americanos ou estadunidenses, para alguns – a respeito do “Pai da aviação”.
Nós brasileiros, sedentos de reconhecimento intelectual, escrevemos preto no branco, que ele é o pai. Mas solteiro.  Quem é a mãe? Dúvidas.
Não percamos tempo. Santos=Dumont não quis ser O inventor, porque queremos ser artistas?
O fato é: o avião voa, e Santos=Dumont voou um dia. E morreu, devidamente registrado pela história incerta, ao ver seu invento matar.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

EXCESSO


Meu maior desejo, meu maior desafio, minha maior descoberta, minha maior dependência, minha maior aventura, minha maior alegria, meu maior trabalho, minha maior motivação, minha maior mentira, minha maior pretensão, meu maior jogo, minha maior sedução, meu maior desatino, minha maior inspiração, meu maior medo, meu maior encontro, meu maior porre, minha maior superação, minha maior perdição, meu maior segredo, minha maior paixão, minha maior entrega, minha melhor aposta, minha maior segurança, meu maior pensamento...
E talvez por isso tudo, minha maior decepção!


Iza Lanza e Tarcísio Moreira, ensaio experimentação, Ouro Preto/MG. foto Aretha Galego.
Produzido entre agosto e setembro de 2008. Ouro Preto, MG. Tudo que excede, cria!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Esse negócio de filosofia funciona.


Sei o quê.
Mas no momento em que começo a discorrer sobre minha sabedoria filosófica, percebo minha ignorância acerca do tema. Já não o sei. Filosofia não de vida. Filosofia é vida. É viva. Folosofia é para mim, mas a todo o momento que vou dizer sobre ela, já não é. Escapa. Calo e  ela faz-se novamente. Um ciclo interminável de pesquisa que constitui o saber ser. É, mas não se sabe todo. Fragmento de um saber. Filosofia é. Saber sobre a vida que não se sabe. Sobre o conhecimento que não existe. É criação. Invenção de mundo, de vida, de sentido sem um sentido único. É sentido na pele, superfície com o toque de dentro e de fora. É território. Povoado, de solidão, muitos povos e muita solidão. Um conhecimento. Filosofia é. Funciona, funciona, funciona. Em todo momento funciona. Não no dito, mas no vivo! Filosofia é. Pensar, pensar, pensar. Filosofia é, mas dizer sobre não é senão dito sobre um desdito contínuo que cria o novo. Filosofia é desdizer antes de dizer algo. Destruição de constituído do/no constituído. Novidade velha. Novidade do velho. Fruto do passado, medo do futuro, mas tudo, sobretudo, com tudo, presente. Filosofia é vida presente. Presença de vida pensante que cria vida pensante. O outro. Um outro dos mesmos. Outro. Sempre outro. Filosofia é pensar. Pensar é criar. Dizer sobre o pensar é reflexão. Filosofia é flexão. Inflexão na flexão. Pensar. Criar. Inventar. Vida. Funciona. Dizer é dizer, não há filosofia. Filosofia é silêncio. O ruído do pensar. Penso eu. Não. Penso em mim. Filosofia é mim. Em mim. Não d-eu

ao lado de Clarissa Alcantara, provocadora , no III Congresso de Esquizoanálise e Esquizodrama - Saúde Metal e Direitos Humanos - Set/2011.



Texto provocado pela presença de Clarissa Alcântara na "Mesa: “O que é a Filosofia... ou como funciona”, no III Congresso de Esquizodrama e Esquizoanálise - Saúde Mentar e Direitos Humanos promovido em BH pelo Instituto Gregório Baremblitt - Set/2011.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Corpo. Que corpo?


foto Flaviano Silva

Corpo. Corpo. Organização. Organismo. Quê, corpo? Corpo assentado na cadeira, tecidos conjuntivo, ósseo, nervoso. Nervos. Corpo é corpo. Cadeira, livro, humano, sangue, escrita, bactéria, casa. Corpo cria. Que corpo cria? Corpo. Que cria corpo? Caos. Re-organização na desordem. Organização na  desordem. Outra. Corpo respira, come, canta, fala, ama, caga, suja, rouba, doa, vive. Como criar um corpo? Com o corpo outro. Relação. Ralação. Sexo, secção. Sarro. Penetração. Gozos e mais gozo. Arranca a pele, respira com estômago, pensa com as pernas, escreve com a orelha, enxerga com o nariz, tateia com o fígado, goza pelo ânus, defeca pela boca. Cria. Dissertação de beira de esquina. Pós-graduado em malandragem. Graduação sem esgoto, casa, dinheiro, fama. PhD em vida. Criar vida. Vida cria. Corpo sentado na cadeira cria. Corpo há muito sentado na cadeira cria inércia. Corpo movimenta. Corpo sem órgãos, não. Corpo com órgãos, outra organização. Corpo outro. Corpo com órgãos outros, sempre outros, outro. Corpo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mas afinal que é essa tal diferença?



Repetição. Não há regime outro que gere tanta diferença quanto o do capital. Dizer ‘seja diferente’ é redundância. Diferença é a única certeza, assim como a morte, ah! sim, como respirar. Todos na diferença somos. Fantástico, não? Mas aí vem tal identificação. Ser aceito como diferente na igualdade, eis o risco já riscado. Só existe diferente quando existe semelhante. Não existe semelhante. Rio do impossível, da impossibilidade da igualdade. Consumo a calça boca de sino, santropê, saruel, capri, corsário, legging, pantalona; cabelos longos, repicados naturais, mas como naturais? Imposição do natural à natureza do cabelo enrolado, liso, anelado, alvoroçado. E vemos um desfile da diferença. Todos vestidos iguais, ouvindo igual, dançando igual, assistindo igual, discutindo igual, bebendo igual, amando igual. Tolice. É pé mancando no salto infame, é música chiclete que gruda na irritabilidade; é cerveja nem tão gelada, nem tão redonda, nem tão a número um, nem tão alcoólica, nem tão feliz. É corpo com celulite, banha que salta ao decote, colote imperdível na academia; é pau pequeno, gozo precoce, depilação atrasada. É diferença na repetição. Ual! É vida surgindo do falso controle da dita moda muda. É excesso. Color block. Muita cor, muita cor, mesmo. Paleta interminável do verde cintilante na pele negra dos olhos azuis de lente. E short curto, apertado, arrochado que cutuca na bunda mais que saliente do ‘cuduro’ brasileiro, não mais africano, menos ainda índio, jamais português. Nem europeu, nem japonês, nem Portugal, nem mãe áfrica. Filhos bastardos abandonados no parto nipo-afro-indo-sei-lá-o-quê: diferença, não igualdade. A saída, há saída, sempre. Onde houver repetição haverá então diferença. Alegria. Sociedade socialista stalinazovenezuelana do contra-norte é igualdade patética. Impotência que não resolveu o complexo inferior de Édipo pós-cegueira de Rei. República tem tudo: muito do que não me agrada, repúdio público ao reinado republicano. Mas quero falar aqui, na diferença, na relação, no entre, nem lá nem cá, lá e cá. Aqui. Agora. Presente. Olhos atentos. Corpo aberto. Atenção. Há diferença sempre. Não é querer, não é poder, não é vontade. É desejo de sei lá o quê. É. É. É. Potência. Vida que se faz na vida. Incerteza certeira, já disse isso em algum lugar. Já disseram isso em outros lugares. Aqui, repetição que gera diferença. Isso! Mas como? Comendo, vivendo, amando, criando. Controlar até que venha o descontrole. Não temer o caos. É ordenação na desorganização. Ordem outra. Veja. Está sempre aí, sempre aqui, não precisa procurar, precisa sentir, sensibilizar, dar-se conta. Doar. Não comprar. Dar-se. Doar-se. Não ao outro. Mas a si. Para si. E aí, já é outro não mais Eu. Prêmios? Não há. Já é premiação deixar-se ser. Tornar-se quem se é. Quem é? Que é? Aquilo que não é semelhança e igualdade. Repetição, repetição, repetição. Diferença, sempre há diferença. Capitalismo. Socialismo. Darwinismo. Iluminismo. Modernismo. Bruxismo. Contemporaneidade. Não tem nome. Não tem rosto. Corpo sem rosto, rosto provisório. Mas, sobretudo corpo. Corpo. Isso. Corpo pronto para torna-se sempre outro. Outro. Sem definição definitiva. Provisório. Sempre em relação a. Corpo como capital de investimento de desvaloração. Sem valor. Chulo, brega, ralé, popular sem ser pop of the top. Apenas corpo com valor de troca, permuta; troca-troca corporal. Faz vida. Perfuração do capital: repetição, repetição, repetição do capital até a total transvaloração, excesso de produção. Lei da oferta e da procura radical. Doar. Dar. Disponibilizar. Entregar. Tudo ao si. Dá?


 ********************************************************


Hoje encerro a era do obsoleto.

Do óbvio.

Do fixo. Seguro. Da anestesia.

Na chuva, sinto as gotas tocarem os pelos, escorregarem pela boca; absorvidas pelo tecido. 
Roupa.
Caminho normalmente. Sem pressa.
Inauguro os sentidos.
A Era da dor.
imagem retirada da net.
Do mutável. Redescoberto.
Aberto. Passageiro. Vivo. Fugaz.
Incerto. Perigoso. Instigante.

Basta de poesia para almas analfabetas.



]julho ou setembro de 2011[

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Para o Charles

Pior que o senso comum
do pastor , óbvio,
é  o da instituição que se diz outra
E rende-se ao pastorar.
Escola.
Que cola:
Cola o pensamento comum,
de um, em muitos.

Covardia poética


Escrevo porque tenho vontade. 
Escrevo, agora, parado ao lado do sol, na ânsia de ver meu corpo relaxado de tantas tensões do pensamento. Tensinar somente os dedos.
Não entendo o pouco que compreendo, penso muito e nada adianta.
Quero parar de pensar. Pensamentos não valem nada, tantos momentos, tantos projetos, tantos tantos... resumidos ao vazio,ao inseguro, a sua forma.
Estou desterrado!
Sem onde pisar, sem parede que me proteja, sem assoalho que me retenha. Só um teto que pressiona incansavelmente minha cabeça.
Isso é criação? Da tragédia, da dor, do pânico, criar?
Se for, quero a falta de inspiração eterna.


foto Fábio Veloso
Ouro Preto/MG - Centro de Convenções - Festival de Inverno de Ouro Preto e Maria, Fórum das Artes 2008.

Desejo futuro



Fechado neste espaço quadrado, paro em meus pensamentos. Tento verter para o papel todas as minhas impreensões. Inútil trabalho! Impossível depois de tantos escritos contentar-me em ser compreendido. Vontade besta essa de querer ser escutado, lido, decifrado. Vaidade passageira que só faz aumentar minha inquietação interna.
Quero ser objetivo, conciso, simples. Não há jeito de ser assim diante de tantas complicações corriqueiras. Jogo, fuga, mentiras! Impressões desmedidas e fugidas.
Quero é felicidade sincera, simplória, sentida apenas. E talvez quando isso conseguir, não necessite mediocremente de papel e caneta para fazê-lo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Projeto Verão 2012

Imagem retirada da internet.
Neste verão
não vou à Academia.
Estou fora da forma.
Outra forma.
A academia não
me cabe.
Halteres pesados
corpos bombados
anabolizados demais;
Pouca adrenalina e muita morfina.
repetição, repetição, repetição
enrijecimento e hipertrofia muscular
Ui!
Rígidas regras,
Regras? Erras.
Neste verão, outono, inverno
vou praticar
Tai Chi na laje
Yoga na esquina
corrida no 'buteco'.
Quem sabe na primavera...
Não me cabe
a Academia.

Desejo Juvenil



Torço cada dia mais
Para que os anos venham
Que a sensação que o tempo se arrasta chegue.
Que o cabelo caia
E os que resistirem se embranqueçam.
Vincos na pele que demora retornar,
Que se entrega à gravidade
Sem gravidade.
O pau caia.
A buceta seque.
Que a lucidez não me comporte.
Que a vertigem seja constante,
Mãos trêmulas.
A morte não seja fatalidade,
Apenas certeza da vida.
Torço para que chegue o dia
no qual o encontro não seja pretexto
para enfiar o pau no buraco.
O encontro não seja sexo, sexo
O sexo como encontro.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Adoro cheiro de vida


Adoro cheiro de vida.
Vida fede.
Suor, sangue,
Gozo, cuspe,
Catarro, chulé
Mau hálito.
Entre o escroto
Nas axilas
No prepúcio
No rego
Nas costas.
Vida fede.
Carrego comigo vida que faz feder vida:
Bactéria, vírus, protozoário.
Adoro cheiro de vida.
Vida fede.
Morte fede ainda mais,
Cheira flores.

Surto consumido

            Já virou clichê de grupo pseudo-alternativo anticapitalista americanizado dizer que o consumismo é uma loucura, que a sociedade do capital está doente e que o colapso esta perto, assim como o fim do mundo em 2012 ou 2017, quem sabe.
            Não é difícil encontrar pessoas que saibam elencar tudo o que faz “mal” à sociedade organizada na alienação: TV para as crianças, excesso de trabalho para os adultos, falta de tempo para diversão com a família, para realmente viver a vida global; tempo nunca se tem, a não ser para gastar preocupado em ganhar mais dinheiro, por menor que seja o valor e mesmo que não haja saúde para gastá-lo. E o medo de sempre se perder o muito pouco que se tem domina o dia, toma a tarde, invade a noite, rouba o sonho e financia o traficante farmacêutico.
Alguma coisa em 7 de setembro. Com Nina Veiga, Flaviana Benjamin e Tarcísio Moreira. Juiz de Fora - MG
            Vivemos no tempo do excesso, mas em constante exceção. Somos seres complexos que fantasiam a realidade, que inventam a todo o momento mundos real[mente] ficcionais. Para alguns, temos um consciente e um inconsciente. Este tal inconsciente, que já fora chamado subconsciente, acredito ser um SUPERconsciente (algum autor já disse isso, mas querendo dizer outra coisa, não sei qual, joga no Google.com). Dizem que o inconsciente está sempre ali, o tempo todo, por isso um superconsciente é mais que o consciente, não é estar imperceptível quanto o inconsciente; está super perceptível, in está muito out. [Super]a-se, acumula forças dando lampejos de razão, forçando um mundo que quer criar. Ele domina, quer conscientemente. Ele é mutante, atento e possui uma atenção constante, parece nunca dormir porque sonha, sonhos terríveis, alucinados, excitantes, amorais, românticos, bizarros, incestuosos. Mas o que querem dizer: já dizem, são sonhos criados por um imaginário potente, artístico e errante, só. Apenas sonhos. O pior é quando se manifesta na presença do outro, quando interfere na relação com o outro, quando determina a interação com o outro: metamorfoseia-se em homo, hétero, bi, pan sexual; não se sabe como, apenas que é. Pernas super inquietas, olhos que piscam, dentaduras que deslizam na boca, maxilares que tensos, dedos que estalam, amizade instantânea e passageira;  monólogos na rua, no banheiro, frente ao espelho; perseguição à noite, uma série de taquicardias, modos que denunciam e/ou anunciam “ Sou eu mesmo, sou eu”. Que eu? Eu quem? Surto! Susto. Absurdo. Surto.
            Ligo a TV (a vilã de sempre!). Tá! Abro a revista, olho outdoors, acesso à internet – lugar potente do surto de 7x70 de perdão infinito. Bobagem a TV, pois o nosso consciente super descobre o superconsciente internauta. Podemos viajar, acessar mundos outros, distantes; podemos ser quem EU quiser. Será? Sexo, sexo, sexo e mais sexo. É surto, é sexo no surto, e surto de sexo, click, um vuco-vuco, sei lá o quê. É super-homem que voa sem poderes, sem pára-quedas, que mata tubarões na prancha de surf, que faz amizade com monstros da floresta, que no naufrágio... Ah! Tá explicado! O comandante daquele navio na Itália pulou antes não para salvar-se e deixar todos ao léu, foi para salvar o isopor de cerveja que estava à deriva. Eu vi isso numa propaganda de cerveja que descia redonda ou redondo? Ou foi numa novela, ou será numa atualização do facebook. Há diferença?
            E já que alguns já mataram deus, resta ao analista, que não é deus, mas melhor, sabem que o é, não diga o que fazer. Porque ele não diz nada, só escuta, analisa, analisa-se, pois ele também está em análise. Temos uma perfeita engrenagem: somos potencializados ao surto, surtamos, aí temos alguém para nos socorrer de nós mesmos, para voltar ao que EU era, mas não sabia ser porque no surto se é muitos, menos EU. Tolice.
            Estamos em tempos de excessos e em exceção. Medo. Temos medo do surto que é inevitável, pior, que é incentivado virtualmente. Há uma saída, uma promissora carreira: analista e pode ser analista de sistema, é quase a mesma coisa que lida com máquina, como se tudo fosse maquinalMENTE previsível no surto
Estamos todos surtados! Que bom! Que potente.
Não há problema algum em querer embriagar-se, cortar-se, estuprar-se, consumir-se, consumir, pulsão de morte-vida: isso é vida. Mas há risco, há coma alcoólico, lei moralizante, polidez política, há outros deuses, tantos deuses, deu-se muita coisa, há deusa científica, há um templo da vida abaixo da Europa que acelera o fim.
O surto é necessário. É pulsão de morte-vida. É preciso morrer para viver. Isso já disse Jesus, já disse Pessoa, mas eles já morreram e não é interessante a igualdade, a semelhança, porque o surto é sempre diferença. O desejo sempre desejo de desejo é desejo outro, nunca igual. Talvez repetição que gera diferença. Blábláblá. Blábláção inventiva de vida. É sentido artístico, são sentidos artísticos sem uma direção senão a vida, mas que direção tem a vida? Não sabe-se. Isso é vida. Incerteza certeira. Potência no nada saber, no tudo poder.
Mas estou EU cá analisando.
Surtados meus e de todos, porque o surto nunca é EU, é sempre NÓS! É encontro EU/OUTRO ou OUTRO/EU. É um não sei o quê com um sei lá o quê, que gera outra coisa que não sei, porque ainda não sou. Sem fim, mas com muitos meios. Acontecimento.
            Tudo assim comprado, para voltar ao assunto que me provocou primeiro a escrever. Somos conduzidos o tempo todo ao surto: querem-nos vender o surto dopado, da velocidade, do sexo sempre prazeroso, da viagem inesquecível, da festa interminável, dos milhares de amigos, da família perfeita, do amor para recordar, do emprego rentável, da felicidade como fim, da saúde constante, da juventude eterna, da morte superada. Querem vender-nos o surto ou nos aproveitam no surto? Querem vender-nos a constância, a potência do surto, a vitalidade surtada. Mas surto não se compra. E todos os surtados de rostos, de propaganda, de pícaras máscaras de surto estão enclausurados numa redoma longínqua de conceitos invisíveis, a salvo da sociedade insegura.
            Temos que surtar. Não compramos o surto e não podemos controlá-lo. Comercializamos um controle inexistente. Drogado, entorpecido. Como viver no/o/do surto? Perigo. Excesso. Morte. Vida. Não há fórmula exata, nem segura. Só certeza de que ele é necessário. De que ele é iminente. Sempre. Tentam vender- nos o controle, a cerveja, o cigarro, a casa, o peito perfeito; procuramos na internet, na rua, o amante ideal, o pinto, a neca, a vara, o caralho, a geba, a pica delícia; o corpo tanquinho para lavar a alma, sem estria, sem celulite, cem, não um. Muito, queremos mais, sempre mais, porque sempre falta ou pode vir a faltar. Será?
            Surtado. Solto. Suado. Tarado pela vida. O que não contam, o que o consciente super acredita não dizer é que se há falta tudo falta, nada satisfaz. Tudo é nada. O surto é pleno, pavor, pupila dilatada, atenção. É desejo sem falta, desejo no nada: nada sou, nada tenho, nadar sem água. Então tudo pode, criação, invenção de outro que não se assemelha a nada, inédito, mas feito das mesmas coisas. Nada é tudo, tudo que se tem. Não há o que se temer, há que se ter coragem. Coragem! Para deixar se acontecer. Para não controlar, para acontecer. É risco sempre. Risco inevitável. Fuga incessante do analista e seu divã. Arriscar-se. Riscar-se. Dilacerar-se. Deixar-se. Pulsão de vida na morte. Morte do EU, vida em mim. Surto é pulsão de vida-morte. No qual morte não é o fim, é o meio; apenas um processo de potência de vida, morte como desejo de vida. Surto. Há que eu morrer para que mim viva. Isso não se compra, não se vende. O mesmo desejo vendido na propaganda acompanha consulta marcada no analista. Falta para eles é processo interminável, para mim, é apenas a falta de um eu que não existe. Fuga na/da falta, no/do controle, falta de fuga, falta fuga. Fuja.
            Nunca se foge do superconsciente. Surto.